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	<title>Sinestesicamente Anestésico &#187; Conto</title>
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	<description>The Dark Side of the Mind</description>
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		<title>Une nuit hallucinante</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jun 2008 07:14:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>MarNovO</dc:creator>
				<category><![CDATA[Altamente X]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[30 de abril, 2008.
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Eric Clapton. A noite se inicia, para ele. Not for Eric, but for him. I shall make this clear from the beginning.
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He knew he wouldn’t leave the apartment. Sabia. Não por falta de dinheiro ou oportunidade porém, ou mesmo por falta de companhia: seus amigos o haviam convidado para os mais diversos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>30 de abril, 2008.<span id="more-125"></span></p>
<p align="center">•</p>
<p style="text-align:justify;">Eric Clapton. A noite se inicia, para ele. Not for Eric, but for him. I shall make this clear from the beginning.</p>
<p align="center">•</p>
<p style="text-align:justify;">He knew he wouldn’t leave the apartment. Sabia. Não por falta de dinheiro ou oportunidade porém, ou mesmo por falta de companhia: seus amigos o haviam convidado para os mais diversos tipos de entretenimento noturno imagináveis. Suas “amigas”, que em maioria estavam mais para affairs semi-fixos também lançaram diferentes iscas, tentadoras como quem as lançou. Não. Sabia que hoje estava por si só, o que definitivamente não era pouco. “Today is a day to hang out with myself”, he thought while smiling. Hanging out with yourself might be cumbersome, and it is certainly something defying.</p>
<p align="center">•</p>
<p style="text-align:justify;">He went down on his way to the fridge in order to get a beer, he deserved after all. Duas. Não eram Heinekens, observou. Tarde demais. Ah! Sim, havia um maço já começado de Camel, um presente. Cigarros como estes são raridades hoje em dia, e portanto devem ser bem aproveitados para algo maior do que transformar uma boca num suporte de bitucas como de praxe. A cerveja estava gelada como a noite. Minto. A noite estava mais gelada que a cerveja, e pensou em ir a um pub da região para tomar uma cerveja melhor numa temperatura mais apropriada. Mas havia gente lá. Ain’t stand a chance.</p>
<p align="center">•</p>
<p style="text-align:justify;">He was in a white room, though no black curtains could be seen, mostly because they didn’t exist, one could suppose. Fechou sua porta, devidamente selada em seguida. Um impulso bizarro na tarde desse dia o havia feito comprar uma luz negra para colocar em seu quarto, numa passagem ocasional por uma loja de construções. Nada mais lógico que instalá-la para teste: oportunidade melhor que no quarto iluminado apenas por um monitor de computador (e algumas luzes piscantes e intermitentes, comuns aos sistemas eletrônicos de cada componente da vida contemporânea) não haveria. É, ficou bom. Bom não. Ok, não esperava muito, os 15 reais investidos na lâmpada talvez até tivessem valido a pena. But his former projections over the outcome were kinda more ambitious.</p>
<p align="center">•</p>
<p style="text-align:justify;">B.B. King came in into the room. Automaticamente apaga seu cigarro, inconscientemente, num sinal de respeito, quem sabe? King e Eric certamente já se conhecem, e ele apenas observa esse encontro, sem saber qual a atitude mais adequada para a ocasião. Resolveu deixá-los tocar (they’ll play the blues for him), e eles o fizeram com grande vigor (não se sabe ainda como outros quartos não presenciaram indiretamente o show, visto que o volume das caixas de som era substancialmente acima do usual &#8211; na verdade, talvez eles tenham) e certa ousadia. Mas sabia-se o que estava por vir, e as paredes brancas, agora num tom azul fosforescente avivado pela luz negra já anunciavam: it’s blue like the blues. Blue, blues, deep blue, deep blues. Ah! Quando se deu conta King havia já sido substituído por sir Robert Johnson, numa transição sem emendas. As paredes respondiam prontamente aos estímulos musicais, e o bulbo roxo saturado agora pulsava. Weird, was that damn think working as it was supposed to?</p>
<p align="center">•</p>
<p style="text-align:justify;">Now he did understand indeed. Herbie já aquecia seu piano ao fundo, embora não pudesse ser claramente ouvido até que o as paredes anunciavam: o Blues estava evoluindo harmonicamente no Jazz, juntamente com o palco e sua iluminação. Os componentes de certo modo eletrônicos contidos na melodia de Hancock justificavam a acuidade tecnológica do espetáculo. Ele estava maravilhado e sorria, sorriso bobo e malicioso, agora restando apenas um pouco de cerveja para supri-lo. Supri-lo de quê? O homem-melancia era do mais puro e natural que uma sede auditiva já pudesse pedir. E percebeu não estar mais na antiga cidade natal, pois as paredes cintilantes o lembravam claramente: estava ilhado. “Damn it, why am I here anyway”, he now wondered.</p>
<p align="center">•</p>
<p style="text-align:justify;">Herbie answered his question in a swift manner: by calling in Davis, who was just a few Miles ahead. Nunca o som foi tão roxo e amarelo, isso por mais que o amarelo se mostrasse completamente ausente, a não ser no refletivo trompete. O azul ainda aparecia vez ou outra, para lembrá-lo: I do exist still. Ele ficou parado, e agora decidiu: preciso me deitar um pouco. Foi esperto, porque no momento todos tinham idéia certeira do que estava por vir, e não seria nada cuidadoso chegar lá despreparado. Nem mesmo sabendo estar numa ilha isolada e selada. Bitches Brew…</p>
<p align="center">•</p>
<p style="text-align:justify;">The stage was then just beside him, never so close. Repleto de figuras pouco bem formadas, cada uma delas explodindo uma musicalidade comedida frente à Davis, o grande maestro of the great maelstrom. O bem-estar da melodia era sempre distorcido ao prazer da banda, tornando-o incessantemente incômodo. Se revirava em meio ao palco, tentando se concentrar num foco, mas logo era atingido por alguma nota errante que o obrigava a mudar de posição. Precisava mudar de estratégia, pensou. Mas ele tinha certeza de que deveria sustentar-se por durante o decorrer da performance, a um custo qualquer que fosse. Lembrou-se, não se entende ao certo o porquê, de métodos evasivos aprendidos no mundo de entretenimento digital. Desviar e acertar linhas multicoloridas não era tão diferente de o fazer em meio à partituras, mis e fás, e sempre foi bom nisso. Defensivo no início, no momento certo de lapso da guarda sonora, deu início ao contra-ataque fulminante. Miles instantly foresaw the imminent defeat coming all his way.</p>
<p align="center">•</p>
<p style="text-align:justify;">But he managed to surpass the situation in an intelligent, and why not, elegant, form. Ele então se depara com Coltrane tocando-lhe um ode à doce vitória, a convite de Davis, alcançada pela combinada perspicácia  e estratégia competitivas dele. Nada como finalmente, prazerosamente sentir de corpo e alma as estrelas do triunfo, que tornaram o ambiente todo azul novamente. Mas dessa vez, um azul leve e de grande claridez. Como holofotes estelares, projeções diretas das luzes do firmamento no branco da cama dele. Relaxou, de fato. O binário do estresse anterior e da tranqüilidade conquistada parecia fazer sentido nos traços ainda presentes de tecnologia. Mas essa tranqüilidade tinha um quê de interrogativa, e o fez perceber algo curioso: seu corpo estava enegrecido. At first from the music absorption, followed closely by the absence of reflection caused by the black light lamp bulb.</p>
<p align="center">•</p>
<p style="text-align:justify;">Noticeably uncomfortable about it, he decided to put on appropriate clothes. Pegou uma vestimenta cinza-clara, generosamente estofada. Agora refletia completamente toda a luminosidade saturada e azul, e se sentia leve e livre mesmo dentro da caixa selada e inviolável na qual se encontrava. Caixa essa que visivelmente havia decolado a um certo tempo da ilha na qual anteriormente se encontrava. A luz não mentia: o pó estelar o trazia cada momento mais próximo do fim da atmosfera, agora já em órbita. Sentia-se aliviado, pois a vestimenta aeroespacial era precisamente do que precisaria para suportar a viagem que se punha a seguir. He felt that, at last, he was intended to go out there for a reason he possibly knew previously.</p>
<p align="center">•</p>
<p style="text-align:justify;">It was getting hotter from the inside and the outside. Não estava certo se a nova vestimenta era a causadora do aumento súbito e preocupante da temperatura, mas deu-a o benefício da dúvida. A fortuna porém, parecia novamente estar ao lado dele, visto que a jornada se tornava mais clara e o objetivo tomava certa forma. A aparição das estrelas, a luz amarela convivendo em meio ao azul do firmamento e ao roxo da sensiblidade musical, os contratempos a serem vencidos, a preparação para a atual jornada rumo ao espaço: tudo intencional, indicando algo. Não demorou a ligar os fatos, e notou que convergiam, de modo incrivelmente específico. Finally, he realized: he had to set the controls of the heart of the Sun.</p>
<p align="center">•</p>
<p style="text-align:justify;">He knew this was no simple mission, and yet he felt for the first time fully capable and able to achieve whatever he ever dreamed of or was assigned to. Inicialmente, tudo parecia ter dado certo. Porém o passar inconstante dos momentos, que agora não mais se dividiam em métrica racional ou lógica, não permitia a existência de dúvidas além: as mudanças feitas na estrela maior haviam destruído o encadeamento temporal, quiçá permanentemente. E isso logo se fez presente mesmo nas formas mais simples do cotidiano, como os animais, as coisas. O modo como os astronautas o olhavam, intercalado por pequenos comentários via rádio-comunicação, denunciava o que ele já imaginava. Pior, ele previu (não se sabe ao certo se tarde demais, ou cedo demais… como se marcar tempo num relógio desregulado, anyway?) a distorção não só do físico. Havia deformações nos conceitos abstratos, anteriormente arbitrários. A solução era então se utilizar de alguma parte chave do problema. And this key was far more near than he could have thought of.</p>
<p align="center">•</p>
<p style="text-align:justify;">Looking aside, he then noticed a little yellow glow, a little radioactive it would seem. Pelo histórico de eventos, que não mais fazia sentido algum, nem mais tinha dimensões exatas, acreditou que pudesse se tratar do sol. Numa análise mais cuidadosa, percebeu um ser de corpo dourado, metalizado. Porém, havia uma humanidade tão grande nesse ser que logo viu numa proeminente e volumosa barba, e nos cabelos grisalhos do autônomo. A voz, sintetizada eletricamente, refletia a experiência por ele passada, acompanhada por um peculiar tapa-olho feito em couro. Não houve conversação concreta e direta, porque a situação existente (se é que fosse possível de se dizer existência no caso) moldava tortamente seus rumos por dentro de laboratórios, arenas de transmissão de ondas via satélite. Ficou acordado que ele seguiria os perigosos procedimentos de maneira que o autônomo continuaria sua jornada anterior inalterada após o desenrolar dos fatos. From now on, all that is known is that it seemed to have worked fine, loose and sharp, without hiccups.</p>
<p align="center">•</p>
<p style="text-align:justify;">The ubiquitous human existence that came from inside that robot made it blossom inside him thoughts. Many thoughts. A então luz azul proveniente das próximas estrelas começava a abrandar, pois havia se deixado solo lunar para trás há algum tempo (felizmente, o tempo), mas ainda assim as paredes caminhavam numa mescla de humanidade, arte, e eletrônica de estridentes teorias e cordas. Ele se dá conta, de que está de volta, e Chick Corea está desempenhando uma de suas obras frente ao palco vazio. Vazio exceto por um ponto que inicialmente inexistia, mas que a vibração do universo de maneira polarizada criou pouco a pouco. But just a moment before tresspassing the portal, he remembered something.</p>
<p align="center">•</p>
<p style="text-align:justify;">It wasn’t out of the blue. The music clearly said remember, remind. Era Duke Ellington, dando os últimos tons azuis ante o portão luminoso. Ele, parado, atônito e saudoso, respira os últimos momentos vividos até então. A carga emocional e psicológica é massiva, e sente que seguir o caminho alternative, proposto pela nova melodia, o levaria para um caminho certamente não agradável, pois findava no sofrimento. Porém, cansado de sua jornada, segue em direção ao grande portal de luz alva que se põe a sua frente, e mostrando algo que ele não via desde o ínicio: letras, dezenas, centenas delas. Alguns números, também. Sentia então que poderia organizar, talvez, os acontecimentos utilizando-se dos novos instrumentos adquiridos. But before it would happen, he realized that beyond that white portal, there was someone.</p>
<p align="center">•</p>
<p style="text-align:justify;">And this time, it wasn’t some random entity. It was a female. Viu-se forçado a responder as insistentes mensagens ao regressar, e percebeu que ficou extenso tempo ausente. Ele era necessário também aqui, e com urgência. Se recompôs do jeito que melhor pôde. Partiu rumo a um local onde pudesse suprir suas demandas físicas. Lembrou-se da existência de fome e sedes humanas, coisas não sentidas nunca antes, pareciam. Tinham formatos e intensidades muito bem definidos, calculáveis até existisse formulário para tal. Existia também o frio. Vestiu-se de acordo, sobrepondo sua jaqueta de couro ao conjunto. A claridade agora não mais o atraía, mas sim causava repulsa. Óculos escuros foram colocados frentes aos dilatados olhos. Mente e corpo tentavam finalmente coexistir num mesmo espaço, ora com, ora sem, sucesso. Anyway, he continued walking by, tracking the place pertaining to the girl who brought back part of himself, though ain’t sure of which one.</p>
<p align="center">•</p>
<p style="text-align:justify;">Then, everything seemed to end, or actually, start. Sabe-se lá se mente ou corpo tomaram lugar, mas ele estava lá, factualmente. Conseguiu se expressar com normalidade notável, de modo que pouco ou nenhum traço do que havia se passado era aparente, fora obviamente o desgaste físico-emocional. Mas o calor humano e real presente nesse momento era indescritível. Os gemidos, o calor, e a pele transpiravam sexualidade num patamar poucas vezes já atingido. A intensidade de cada aspecto era multiplicada por um arbitrário e tornava a experiência diferente, muito diferente. A convergência dos fatores físicos, psicológicos e emocionais culminou em algo que nem mesmo ele obteve instrumentação em sua jornada para conseguir explicar. Deixou-a enfim, porém. She had to travel by. They would meet soon, eventually.</p>
<p align="center">•</p>
<p style="text-align:justify;">The question that lasts is: how soon will he meet himself, again?</p>
<p align="center">•</p>
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		<title>Elementar, meu caro Watson</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Apr 2008 06:25:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gui Krähenbühl</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[O cheiro do Outono enchia o ar claro e parado, mas era suave e delicado. A Rua Santa Leocádia, localizada na zona norte de São Paulo, estava particularmente tranqüila naquela manhã. Era um “dia de mundo vazio” — fenômeno que ocorre aleatoriamente em São Paulo, no qual dias as ruas estão incrivelmente cheias em um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">O cheiro do Outono enchia o ar claro e parado, mas era suave e delicado. A Rua Santa Leocádia, localizada na zona norte de São Paulo, estava particularmente tranqüila naquela manhã. Era um “dia de mundo vazio” — fenômeno que ocorre aleatoriamente em São Paulo, no qual dias as ruas estão incrivelmente cheias em um determinado horário, e em outro dia, no mesmo horário, não tem trânsito nenhum…</p>
<p><span id="more-91"></span></p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Mal sabia Isabella das surpresas que esse fatídico dia estava para lhe revelar. Ela tomava seu café da manhã em plutão como fazia todas as manhãs. Uma grande tigela bem servida de Sucrilhos Kellogg’s era o suprimento necessário para horas a fio de brincadeiras mil. Enquanto comia, assistia a seus programas matinais favoritos — adorava o Pernalonga.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Crec, crec, crec. — mastigava ruidosamente e de boca aberta — Paiê, quero mais leite.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">O pai, sentado à mesa, entre uma página e outra de seu jornal, passou o leite à menina, sem sequer prestar atenção no seu ato, quase automático.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">A menina terminou de tomar seu café, arrumou sua pequena mochila cor-de-rosa e estava pronta para mais um dia feliz em sua escolinha. Estava especialmente alegre porque, neste dia, ao sair da escola, ela iria para a casa de sua mãe, que era divorciada de seu pai.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Não que não gostasse de seu pai, Alexandre, no entanto, dava-se melhor com Ana, sua mãe. Alexandre também não gostava muito de Isabella. Ele a enxergava como números, obrigações, deveres e prejuízos. Isabella podia sentir isso. Entretanto, não manifestava frustações em suas ações. Com sua pouca idade nem sabia o que frustação queria dizer, por não saber o que era, não sentia também. Até tem a sua lógica.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Pai, estou pronta. — murmurou entre os dentes.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">O pai pegou seu blaser no mancebo localizado no hall, e saiu pela porta de entrada principal. A menina o seguiu instintivamente. Desceram pelo elevador. Alexandre exalava ansiedade e tensão em seus atos mais simples e corriqueiros, como seu “bom dia” seco aos funcionários do condomínio.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Isabella chegara em sua escola. De repente começou a rir e correr em direção ao balanço, que não via desde a semana passada. Sentou nele como uma boa menina e Clara, sua professora, balançou-a, devagar e delicadamente. Era um acontecimento para ela. Sobretudo porque não saía havia muito tempo — seu pai a mantinha em um regime de confinamento durante todo o tempo que ela permanecia em seu apartamento.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Todos os seus pensamentos se foram. Podia ouvir seus colegas conversando ao seu redor. Podia sentir a presença de seus corpos, o calor das suas mãos sujas de terra. Ela estava profundamente grata à vida, que lhe dava tanto…</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Agora peço parcimônia ao leitor atento, pois a história, aqui e agora, se divide em três desfechos diferentes.</p>
<p align="center"><strong>Desfecho Número 1 — Sorrindo para Sempre</strong></p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">O sinal soou estridentemente anunciando o fim do período e a volta para casa.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Até amanhã, crianças. Não esqueçam de trazer o papel de autorização à ida ao zoológico assinado pelos seus papais e mamães, hein? — finalizava a aula, Clara.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Isabella estava faminta já a essas horas — seu pai nunca colocava seus lanches preferidos em sua lancheira, e já tinha desperdiçado toda a energia açucarada de seu café da manhã.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Lançou-se aos braços de sua mãe ao vê-la, num misto de agitação e felicidade.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Tudo bem, filha? Brincou bastante hoje?</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Sim! — e abriu um sorriso estonteante.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Desculpe-me eu ter demorado mais para vir. Tive que resolver uns problemas no trabalho. Vamos demorar mais um pouco ainda, porque temos que passar no seu pai pegar umas coisas.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Ah, temos mesmo? — o sorriso desapareceu quase instantaneamente.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Receio que sim. Tenho que pegar um cheque da pensão. Não tenho dinheiro para passar essa semana. — abaixou a cabeça, num gesto de embaraço.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">No carro as duas cantavam as músicas do rádio juntas. Fazendo caras e bocas interpretando todas as cantoras do mundo. Divertiam-se.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">O tráfego repentinamente parou por completo. E estavam a três quadras apenas do prédio de Alexandre. Parecia uma batida de carro.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Ana pulou do assento quando reconheceu com dificuldade o carro de Alexandre ao longe. Foi difícil de reconhecer, é verdade — o carro se encontrava praticamente em pedaços. Tirou o cinto de segurança e correu o mais rápido que pôde. Isabella sem saber o que se passava começou a gritar aflita pela mãe.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Alexandre morrera instantaneamente. Foi totalmente indolor, garantiu um policial à Ana, após meia hora tentando acalmá-la. Ela ainda não tinha se desvinculado afetivamente dele. E chorava pela pobre Isabella também. Dias difíceis estavam por vir, sabia disso. Ana não ia muito bem no emprego. Sua única esperança era saber se Alexandre tinha alguma espécie de seguro de vida. Ele comentara sobre algo do tipo um tempo atrás.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Ana foi à delegacia. Após esperar duas horas com Isabella no colo, que estava desmaiada de cansaço — desde aquela hora não comera nada —, foi atendida por um policial que se aproximou rapidamente.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Aqui estão os pertences de seu ex-marido que conseguimos recuperar do acidente. O culpado não foi o seu marido. Um ônibus perdeu o freio e bateu com toda força na lateral do carro, matando-o na hora.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Ele entregou à Ana um castiçal, uma corda, uma tesoura, uma troca de roupa, a carteira e a maleta do trabalho dele. O policial guardou tudo em uma sacola e deu nas mãos de Ana, que recebeu com hesitação.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Na carteira havia algum dinheiro e alguns cartões — o suficiente para uma semana, se economizassem. O policial a informou de algum seguro de vida. Ela precisaria assinar alguns papéis depois.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Ao olhar o testamento, Ana teve um surto psicótico. Menos de um quinto do dinheiro ia para Isabella. Do restante, metade do dinheiro era para a mãe dele e a outra metade para a sua atual esposa, que estava a caminho.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">O dinheiro daria para sustentar Isabella por apenas dois anos.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Ana estava fatigada. Não conseguia mais articular pensamentos. E seus braços estavam doendo muito, de tanto segurar Isabella. Foram embora para a casa. Já era noite. Ao despertar, Isabella lembrou-se da morte de seu pai. Chorou por alguns dias. Chorava mesmo quando não tinha mais lágrimas…</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Uma semana se passou e já nem se lembrava mais do ocorrido. Estava acostumada à sua nova rotina sem o pai. Ana havia se recomposto e cuidava muito bem de Isabella — aprendera a fazer o papel de pai e de mãe ao mesmo tempo.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Era uma nova e agradável manhã de Outono. Isabella chegara à escola. De repente começou a rir e correr em direção ao balanço, que não via desde a semana passada…</p>
<p align="center"><strong>Desfecho Número 2 — A Madrasta</strong></p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Todos os alunos já estavam acomodados nas salas de aula — o intervalo tinha terminado. Clara entrou na sala sorrindo, como sempre.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Estava com um bilhete na mão.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Isabella! Tenho um recado para você, querida. A sua mãe está muito ocupada no trabalho. E quem virá buscar você hoje será Carolina.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Carolina era a madrasta de Isabella. Ela possuía no olhar algo de perverso. Tinha uma postura de mulher moderna, e estava sempre na moda. Morava com Alexandre fazia alguns anos já. Não possuía filhos com ele, e nem pretendia. Odiava crianças. E era infértil de qualquer forma.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Isabella não gostou da notícia, mas não tinha nada o que fazer a respeito. Na verdade mesmo, não gostava de ficar sendo empurrada de um lado para o outro desse jeito. Ela queria tanto uma família normal, como todos seus coleguinhas…</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Já tinha passado do meio-dia. Carolina chamava por Isabella sem sair do carro. E buzinava incessantemente. Além de tudo, era muito impaciente, particularmente com crianças muito pequenas.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Anda logo, Isabella, não tenho o dia todo. — gritava.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Isabella mal fechara a porta do carro, e Carolina saiu bruscamente. Como se aqueles cinco minutos pudessem mudar toda uma vida.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Carolina não iria trabalhar aquela tarde. Ela não gostou nem um pouco da idéia de Ana não ter ficado com a pobre menina. A única tarde livre de sua semana teria que gastar vigiando a “diabinha”, como a chamava.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— E ainda nem é minha filha, a desgraçada. — pensava.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Isabella chegou faminta no apartamento e foi direto para a cozinha. Logo em seguida, Alexandre chegou. Sempre almoçava em sua própria casa. Seu trabalho não era muito longe dali.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Querida, trouxe um presente para você.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Deu um embrulho à Carolina. Isabella a fitou enciumada, enquanto Carolina abria o presente olhando fixadamente nos olhos de Isabella. Era um castiçal banhado a ouro e bem pesado. Algumas semi-joías jaziam encrustadas no metal bem polido.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Era o tipo de coisa que Carolina adorava. Logo pôs o castiçal em um lugar de destaque na estante da sala.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Alexandre comeu rapidamente e já saiu de novo. Era um daqueles dias corridos.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Isabella depois de almoçar foi brincar em seu quarto. Deixando Carolina lendo sozinha na sala.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Isabella não era uma garota de muitos amigos — não era difícil de encontrá-la brincando sozinha. Não reclamava. Nunca passava tempo demais em um só lugar para ter tempo de consolidar uma amizade. Já mudara de escola três vezes. E estava no segundo ano.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Carolina era uma mulher muito bonita, dissipava luxo e vaidade. Não era raro vê-la em grandes eventos sociais pela cidade. Não obstante, não era difícil de encontrá-la com homens que não seu marido. Luxúria era seu pecado predileto.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Ela possuía um certo ciúmes de Isabella. No fundo, queria muito ter um filho com Alexandre. Ao menos para segurar o casamento, que não ia muito bem havia um tempo. O salário de Alexandre era muito superior ao seu. E era tal salário que sustentava todo o seu luxo.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Ah! De pensar que um terço do salário dele vai para a “diabinha”. — falava para si mesma, enquanto folheava seu livro e idolatrava seu castiçal dourado.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">O telefone tocou. Era Alexandre dizendo que trabalharia durante a noite novamente. De fato era um dia muito corrido para ele.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Carolina sorriu para si, ao desligar o telefone. Jogou o livro no chão e logo foi verificar o que Isabella estava fazendo. Ela dormia profundamente.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Seu sorriso alargou-se. Pensou em chamar Rogério para passar a noite com ela. A essas horas ele estava saindo do trabalho. Não hesitou em discar rapidamente seu número.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Em meia hora a campainha tocou. Ela abriu a porta. Era de um tipo atlético, os curtos cabelos negros estavam totalmente desfeitos, como se tivesse acabado de acordar. Tinha olhos verdes, como os de Carolina.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Foram para a suíte principal quase que imediatamente.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Isabella inocentemente acordou e foi chamar Carolina no quarto. Ao abrir a porta se deparou com um estranho e assustou-se:</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Carol… Este não é o papai…</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Carolina avançou nela como um cão esfomeado avança sobre um pedaço de carne. Agarrou-a pelos braços, sacudiu-a no ar e a arremessou ao chão. Estava possessa.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Você não vale um almoço, menina! Estou farta de você e sua intromissão na minha vida!</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Correu para a sala e pegou o castiçal. Ao voltar, Isabella rastejava em direção ao seu quarto. Arrependera-se de ter saído de lá. Carolina ria ruidosamente. Seus olhos tingidos de vermelho imprimiam o que havia de assutador em sua alma.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Partiu para cima de Isabella novamente e deu-lhe uma pancada na cabeça com o castiçal. Isabella juntou suas forças para gritar:</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Pára! Pára! Pai! Pára! Pai!</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Carolina não economizou força na próxima investida, calando Isabella que agora só conseguia gemer de dor, levando as mãos à cabeça. Murmurava alguma coisa ininteligível. Carolina bateu de novo com o castiçal. Isabella cuspia sangue agora. Não mais possuía voz para gritar por socorro. Tentava rastejar em direção à porta de seu quarto, mas Carolina a impedia de prosseguir.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Num último ímpeto de fúria, Carolina rasgou a rede da janela do quarto de Isabella e a arremessou seis andares abaixo. Pôde escutar o som seco que o corpo dela fez ao tocar o solo.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Sentia-se aliviada agora. E tremendamente segura — seu segredo estava a salvo. Rogério assustara-se com Isabella e fugira de medo, antes mesmo de Carolina pegar o castiçal.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Carolina sentou-se à mesa e esperou por Alexandre calmamente.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Quando ele chegou, ela serviu duas taças de vinho tinto e comentou que Isabella se matara durante a tarde. Ele abriu sua maleta e bradou:</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Então não vou mais precisar disto… — tirou uma corda e uma tesoura de lá.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Olhou sem querer para a estante e notou que dali sumira o castiçal. Perguntou para Carolina se ela havia o mudado de lugar…</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— É uma longa história, querido. Uma longa história…</p>
<p align="center"><strong>Desfecho Número 3 — O Instinto Selvagem</strong></p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">A sirene para entrar na sala ressoou por toda a escola. Isabella não queria entrar na sala de aula e se escondeu no banheiro. Às vezes gostava de pregar peças em todo mundo.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Não se comportava muito bem na escola. As professoras a chamavam de “garota problema”. As pedagogas achavam que era por ela ter uma infância agitada demais. Pais separados, freqüentemente tinha que ficar sob os cuidados da madrasta, não possuía amigos, e uma série de outros fatores colaboravam para seu isolamento social.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Estava tudo calmo já. Podia sair do banheiro. Vagou sozinha pela escola por um tempo até entrar em uma sala de aula vazia. Dirigiu-se a um grande aquário de vidro onde um hamster brincava sossegado. Não hesitou em pegar uma tesoura e cortá-lo vivo.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Começou a rir e a se lambuzar com o sangue ainda quente do pobre animalzinho. Pegou e cortou a pele do bicho que ainda agonizava. Fez uns orifícios para seus dedos e se deu uma luva. Já podia retornar para sua sala de aula.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Aterrorizada, Clara chamou a diretora e os coordenadores. Alguma coisa precisava ser feita. Todos os alunos da sala se agitaram. Alguns choravam, outros tinham medo de se aproximar de Isabella. Ela sorria imensamente.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Ligaram para Ana. Ela largou o trabalho e foi imediatamente para lá. Ela avisou Alexandre também sobre o ocorrido. Ana pegou Isabella e a levou ao apartamento de Alexandre, que já estava esperando por elas.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Ana tinha urgência. Não podia ficar com Isabella aquela tarde.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Alexandre se ofereceu. Tinha a tarde livre mesmo. Isabella adormeceu logo após tomar um banho e tirar todo o sangue de sua pele.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Acordou quando já era noite. Alguma coisa estranha se passava em seu quarto. Escutava vozes que davam ordens esquisitas para ela. Primeiro mandaram ela ir para a sala, onde seu pai conversava com Carolina, sua madrasta. Falavam mal dela. Pelo menos era o que Isabella escutava de sua madrasta:</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Por que nós não damos um fim de uma vez por todas nessa garota, amor? Vai liberar mais dinheiro do seu salário! Aquela pensão é tão abusiva, não é?</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Isabella deixou escapar uma lágrima e um soluço.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Alexandre e Carolina olharam para a porta e puderam reconhecer Isabella. Ao ser notada, a menina saiu correndo para o quarto.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">O casal descansou as taças de vinho sobre a mesa de centro e Alexandre foi ver se a filha estava bem.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Ao chegar no quarto a menina se debatia. Se jogava de um lado para o outro e ria muito. Parecia estar possessa por algum espiríto pungente. O pai paralisou-se diante de tal comportamente nunca antes visto.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Vou acabar com a sua vida! — ela bradou ao seu próprio pai, entre uma pancada e outra que dava na parede.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Ela gritava a plenos pulmões:</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Pára, pai! Pára, pai! Socorro! Socorro! Pára, pai!</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Olhou funestamente para o pai antes de cortar a rede de sua janela com a tesoura que matara o hamster e pular. Caiu por seis andares inteiros. Quando chegou ao chão ainda estava viva. Podia sentir seu coração pulsando, talvez efeito da adrenalina então liberada no salto. Sentia muita dor por todo o corpo. Seu corpo seria o preço que teria que pagar para destruir a vida do pai.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Ela pensara em tudo. Seu pai seria incriminado por matar a própria filha. E tudo o que ela tinha que dar era seu próprio corpo.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:left;">Fechou os olhos. As vozes desapareceram.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:right;">
[Guilherme Krähenbühl~]</p>
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		<title>Um Conto de Natal</title>
		<link>http://mnovaes.eu/sanestesico/2008/03/um-conto-de-natal/</link>
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		<pubDate>Tue, 04 Mar 2008 06:04:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gui Krähenbühl</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[A janela estava embaçada, mal se podia ver a neve que caía friamente do lado de fora. Era véspera de Natal, e a única criança da casa estava triste. Sabia que não ganharia presentes nesse Natal, como nos treze anteriores. Deixou cair uma lágrima.
Ao pensar nos presentes se esquecia do frio e da fome que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">A janela estava embaçada, mal se podia ver a neve que caía friamente do lado de fora. Era véspera de Natal, e a única criança da casa estava triste. Sabia que não ganharia presentes nesse Natal, como nos treze anteriores. Deixou cair uma lágrima.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;"><span id="more-81"></span>Ao pensar nos presentes se esquecia do frio e da fome que a assolavam. Queria tanto uma bicicleta…</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Os pais estavam na cozinha. Conversavam sérios:</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Querida, a situação deste ano está ainda pior. Coloque mais água na sopa. Vovó passará aqui conosco desta vez.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Não sei mais onde pôr água. A sopa já nem mais é sopa. É água quente. Se bem que com este frio, há de fazer bem…</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Verei se encontro algo para colocar na sopa pela rua, já volto.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Não esqueça o casaco, Walter querido.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Pegou um casaco todo roto, e abriu a porta. Foi quando o menino virou-se para ele e disse:</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Papai, onde você vai? Posso ir junto?</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Está frio lá fora, Tim. Fique em casa com sua mãe. — E fechou a porta com um estrondo.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Ventava muito. O vento cortava sua face, fazendo seus lábios sangrarem. Pensava na sopa quente e se esquecia de todo o resto. Encolheu-se e continuou andando pela calçada escorregadia e suja. Uma mistura de neve com lama impregnava todo o chão. Andou duas quadras e virou num beco, a fim de evitar as rajadas diretas de vento.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Avistou um lixo próximo à porta de um restaurante, já fechado. Abriu a grande tampa. Algumas baratas fugiram assustadas com a agitação. Encontrou uns restos de batata frita. Pegou-as e as analisou à luz; jogou fora. Não teria coragem de dar aquilo a seu filho. Não se sujeitaria a isso. Quis chorar, mas o frio não permitia.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Revirou mais um pouco e encontrou uns legumes. Quase sorriu. Teve um calafrio quando encontrou um repolho inteiro. Já podia voltar para sua casa.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Fez todo o caminho de volta, lamentando-se por toda essa situação constrangedora. Reminiscências de toda uma vida sofrida passaram por sua cabeça, mas logo seus pensamentos voltaram à sopa quente.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Ao chegar em casa, todos estavam sentados ao redor da mesa, inclusive sua mãe. Ela possuía no olhar o abatimento trazido pelos anos. Um tal traço estampava em seu semblante uma vida de consternações. Às vezes parecia que desejava a morte. Silenciosamente. Entre um gesto e outro.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Sua esposa fez os preparativos necessários. Era quase meia-noite e todos estavam famintos. Seria a primeira refeição do dia.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Sorveram a sopa ruidosamente. De tal modo, em questão de minutos, secaram o enorme caldeirão. Para eles, aquilo era felicidade. A mãe passou lentamente a mão sobre a cabeça de seu filho e sorriu levemente. O tempo poderia parar ali. Então a criança fitou por uns instantes sua mãe e protestou baixinho:</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Eu gosto tanto do Natal, mamãe, que todo dia poderia ser Natal. — Sua expressão denotava um quê de melancolia.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Ah, querido, eu gostaria tanto que você pudesse ganhar um presente, como tantas outras crianças… — Parou de acariciar seu filho, suspirou e começou a retirar os pratos da mesa, como se tivesse voltado à realidade.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Mas, mamãe, eu não me importo, porque eu não sou como as outras crianças. Eu posso me divertir com o pouco que eu tenho. E de nada me serviria uma bicicleta agora, com essa neve lá fora…</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Isso é bem verdade. — Replicou o pai. E continuou:</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Bom, já está tarde, e amanhã acordarei cedo. — Fez uma pausa. — Sairei em busca do nosso almoço…</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Arrastou a cadeira e se dirigiu a seus aposentos. Estava tão cansado e fazia tanto frio que mal encostou na cama e já adormeceu. Teve um sonho que não foi em tudo um sonho.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Recebera uma visita durante seu sono. Tal ser misterioso falava diretamente em sua mente. Suas palavras eram etéreas e pareciam ecoar pela sua cabeça.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Quem é você?</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Eu de fato não sou um amigo, mas das suas esperanças eu sou a última.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Quem é você? — Repetiu. — Eu estou sonhando?</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— A vida é um sonho atrás do outro. Tudo é ilusão.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Seis luzes verdes se acenderam nesse momento, revelando um salão hexagonal feito de largos tijolos. As velas que queimavam não aparentavam ser deste mundo. Walter suava frio, ao olhar ao redor. Estava no centro da sala.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">A voz continuou, vibrante:</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Alguns me chamam de espírito do Natal, outros ainda de fantasma ou morte, mas eu sou mesmo o diabo.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Walter deixou escapar um soluço. Balbuciou algumas palavras:</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Onde está você, que não o vejo?</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Um clarão tomou conta do recinto, seguido por um estrondo. Uma imagem quase esvanecente de um lagarto sobre duas pernas apareceu em um dos cantos da sala. Uma névoa surgia do chão, e inundava aos poucos o ambiente lúgubre.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Aqui estou, bem diante de você.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Involuntariamente Walter pôs sua mão na frente dos olhos. Não desejava ver.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Que espécie de monstro você é? Você não pertence a esse mundo!</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Decerto que não.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— O que você quer de mim?</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Eu não quero muita coisa. O que eu quero de você é… sua alma!</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Minha alma? Mas sem minha alma, como supostamente eu viveria?</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Ah, dá-se um jeito. Mas fique tranqüilo. Não trocarei a sua alma por nada. Você poderá pedir qualquer coisa em troca. Eu disse… qualquer coisa! — Fez uma pausa e sorriu sem mostrar os dentes. — Há apenas três regras: não se pode desejar mais pedidos, e não se pode solicitar nem amor nem a morte de alguém.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Bom, eu não sei. Há tanto o que pedir. Dê-me algum tempo.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Amanhã eu retornarei novamente em seus sonhos. E que isto daqui seja o nosso segredo, sim?</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Antes que Walter pudesse responder, todas as luzes se apagaram de uma vez, fazendo-o acordar assustado num sobressalto. Já era de manhã. A neve continuava a cair do lado de fora enquanto finos raios de luz penetravam pela pequena janela do quarto.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Tudo aquilo foi um sonho? — Perguntava-se em pensamento.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Sua esposa já havia acordado e estava tricotando grossas roupas de lã. Aquele inverno prometia muito frio pela frente.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— O que é minha alma? O que ele faria com ela? Devo eu trocar minha alma por algo? — Estas perguntas ecoaram pela sua cabeça o dia todo. Mal conversou com sua esposa ou seu filho. Tinha medo de contar a eles. Sabia que não deveria.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Não resistiu. Pouco antes de adormecer acordou a esposa. Ela não entendia nada — ele falava rápido demais e dizia coisas aparentemente sem sentido. Quando enfim a esposa conseguiu acalmá-lo, ele contou tudo demoradamente, com todos detalhes possíveis. Sua esposa concluiu:</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Querido, foi apenas um pesadelo… Volte a dormir, sim? Amanhã discutiremos isso. Temos passado por dificuldades. É normal que tenha sonhos desse tipo!</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Não foi um sonho. Eu sei que não foi…</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Volte a dormir, Walter querido.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Ela o embalou até ele cair num sono entorpecente. Quase instantaneamente as luzes verdes se reacenderam. Estremeceu. Preferiria morrer a olhar para aquela figura sinistra novamente.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">E lá estava o diabo, em um dos cantos. A mesma névoa fina ao redor dele. O mesmo tom etéreo e vibrante ao falar:</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Você não cumpriu com sua palavra. Pagará por isso! E tenho dito. Sua alma agora me pertence. E não terá direito a pedido algum.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Mas senhor…</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Cale-se! Tenho mais a dizer. Ainda esta noite, em sonho, farei uma visita a seu filho.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Tão logo o diabo desapareceu, Walter sentiu um vento gelado rodopiando ao seu redor. As luzes verdes se misturavam com o ar e criavam um vórtice que entrou por sua garganta e tirou-lhe o único bem que ainda possuía — sua própria alma.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Acordou tentando tragar profundamente o ar. Não conseguia mais respirar. Sua mulher, assustada, batia em suas costas, numa vã tentativa de fazê-lo respirar.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Na pequena cama ao lado, Tim sonhava irrequieto, sem saber o que se passava ao seu redor. Agora era ele quem estava no meio da câmara hexagonal. Não se assustou quando o diabo apareceu, estava antes curioso do que com medo. Pronunciou um olá tímido.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Olá. — Respondeu o diabo, que completou: — Você sabe quem sou eu?</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Papai ontem estava a falar de um tal diabo que aparecia em  sonhos. Eu não entendi muito bem, até poder ver você agora.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Um garoto tão esperto para um pai tão burro. Você sabe o que eu quero de você? — Seus olhos faiscavam.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Não. Mas você não pode querer muita coisa. Na verdade mesmo, não tenho muito a oferecer…</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">O diabo gostava de crianças. Eram almas fáceis de se corromper. Além do mais, nunca pediam algo realmente difícil de se conseguir. Mas só podia entrar nos sonhos das crianças quando em posse da alma do pai ou da mãe.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— O que eu quero de você é a sua alma. Alma é o que faz você ser quem você é. Você, para viver, não precisa dela. Você, para viver, precisa de brinquedos! — A língua do diabo se tornava especialmente afiada quando lidava com crianças.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Eu tenho uma alma?</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Todos tem. E você pode trocar a sua alma por qualquer coisa que queira. Eu disse… Qualquer coisa!</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Eu posso pedir qualquer coisa mesmo?</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Bom, você apenas não pode pedir mais desejos, nem a morte ou amor de alguém…</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">— Eu aceito! E eu desejo… — Parou por uns segundos… — Eu desejo ser o próprio diabo!</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Um olhar inconformado foi a última expressão do diabo, antes de esvanecer por completo.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Agora que Tim era o próprio diabo, era possuidor de um grande montante de almas. Tinha tantos poderes, mas nem tinha por que utilizá-los. Aprendeu com os anos a não esperar muito da vida. A não desejar o que não podia ter… Era um garoto sem pretensões. E agora era o diabo.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">No momento, encontrava-se perdido. Perdido pela vida. Logo, lembrou-se de seu pai, que costumava guiar seus passos sempre. Saiu do sonho e caminhou lentamente até o leito dele. Seu pai se achava tão branco e sua mãe e avó choravam tanto… Logo percebeu o que tinha se passado. Lamentava veementemente. Lembrou-se, então, de que poderia fazer qualquer coisa — mas o sorriso de seu rosto desaparecia gradualmente, ao lembrar-se também de que o combustível para seus poderes ilimitados eram almas.</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Tomado por uma atitude impensada, trocou sua alma pela vida de seu pai. Não teria coragem de tirar a alma de ninguém mais dali, senão a sua própria…</p>
<p style="text-indent:30px;text-align:justify;">Seu pai despertou como de um transe profundo, gritando pelo nome de seu filho, o qual o fitou com ternura pela última vez, antes de adormecer para sempre.</p>
<p style="text-align:right;">[Guilherme Krähenbühl~]</p>
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