fev
08
2010

Como uma Árvore

Dans un monde devenu désert, nous avions soif de retrouver des camarades.*
— Antoine de Saint-Exupéry

Uma estrela cadente cortava o céu rapidamente, enquanto seus pensamentos despedaçavam em contornos incertos. A luz da Lua refratava nas pesadas gotas de chuva que caíam no asfalto, iluminando todo o ar. Fazia calor.

Ele se aproveitava da ebriedade de todo aquele licor que havia sorvido durante aquela noite de Verão. Em suma, queria apenas se divertir.

Foi quando saiu pelas ruas, louco dentro de sua própria loucura. Sem rumo ou documento. Levava consigo apenas aquele espírito jovem que fazia de sua alegria algo inerente ao mundo. Um tanto quanto blasé, é verdade. Mas foi assim que o fim de sua noite começou.

Palavras invisíveis mostrariam logo mais como o mundo é deveras ínfimo. O seu era. Não contaria, a partir desse momento, senão com dois ou três amigos, no máximo. Não que isso fosse triste. Mas era perturbador.

Quantos desejos levava consigo no coração — quantas gotas no ar havia! Mas somente uma ideia trazia na cabeça. Precisava conhecer novas pessoas. “É estatística”, pensava. “Quanto mais pessoas se conhece, maiores as chances de se encontrar bons camaradas.”

E a vida continuaria, ainda sem se conhecer muito bem os motivos. Gota após gota. Lua após Lua. No final, todo mundo envelheceria. E, por fim, a chuva cessaria.

Os desejos em seu coração um a um sendo realizados estampariam a perfeição em seu caráter. Não teria necessidade senão de respirar. Atingiria, por fim, a perfeição da senilidade. O inverno da vida. Sim, a vida também tem suas estações. Seus cabelos seriam brancos como a neve. Sua pele envernizada como a madeira seca de uma árvore sem folhas.

Entretanto, vivia, ainda, o Verão. Aquela chuva na pele o reconfortava. Fazia-o sentir-se vivo. Gostava daquela sensação. Tentava sentir todas as gotas de uma vez. Contava-as mentalmente. Fechava os olhos e se entregava. Não. A quem estava tentando enganar?

Deixou cair uma lágrima, que logo se confundiu com a chuva.

Mesmo com todo o céu a sua disposição, sentia-se sozinho. Embora, no fundo, soubesse que tinha dois ou três amigos com quem contar.

Aquelas palavras ecoavam dentro de seu espírito. Magoavam. Não possuía nada, além de seu corpo e de sua alma. Mas não bastava. Num mundo físico, é preciso ter para ser. Sua existência, portanto, estava inda incompleta.

E foi assim que aquela noite terminou. Nenhuma palavra. Uma ideia. Muitos desejos.

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(*) Num mundo que se faz deserto, temos sede de encontrar um amigo.

Written by Gui Krähenbühl in: Crônica |

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