abr
10
2008

Elementar, meu caro Watson

O cheiro do Outono enchia o ar claro e parado, mas era suave e delicado. A Rua Santa Leocádia, localizada na zona norte de São Paulo, estava particularmente tranqüila naquela manhã. Era um “dia de mundo vazio” — fenômeno que ocorre aleatoriamente em São Paulo, no qual dias as ruas estão incrivelmente cheias em um determinado horário, e em outro dia, no mesmo horário, não tem trânsito nenhum…

Mal sabia Isabella das surpresas que esse fatídico dia estava para lhe revelar. Ela tomava seu café da manhã em plutão como fazia todas as manhãs. Uma grande tigela bem servida de Sucrilhos Kellogg’s era o suprimento necessário para horas a fio de brincadeiras mil. Enquanto comia, assistia a seus programas matinais favoritos — adorava o Pernalonga.

— Crec, crec, crec. — mastigava ruidosamente e de boca aberta — Paiê, quero mais leite.

O pai, sentado à mesa, entre uma página e outra de seu jornal, passou o leite à menina, sem sequer prestar atenção no seu ato, quase automático.

A menina terminou de tomar seu café, arrumou sua pequena mochila cor-de-rosa e estava pronta para mais um dia feliz em sua escolinha. Estava especialmente alegre porque, neste dia, ao sair da escola, ela iria para a casa de sua mãe, que era divorciada de seu pai.

Não que não gostasse de seu pai, Alexandre, no entanto, dava-se melhor com Ana, sua mãe. Alexandre também não gostava muito de Isabella. Ele a enxergava como números, obrigações, deveres e prejuízos. Isabella podia sentir isso. Entretanto, não manifestava frustações em suas ações. Com sua pouca idade nem sabia o que frustação queria dizer, por não saber o que era, não sentia também. Até tem a sua lógica.

— Pai, estou pronta. — murmurou entre os dentes.

O pai pegou seu blaser no mancebo localizado no hall, e saiu pela porta de entrada principal. A menina o seguiu instintivamente. Desceram pelo elevador. Alexandre exalava ansiedade e tensão em seus atos mais simples e corriqueiros, como seu “bom dia” seco aos funcionários do condomínio.

Isabella chegara em sua escola. De repente começou a rir e correr em direção ao balanço, que não via desde a semana passada. Sentou nele como uma boa menina e Clara, sua professora, balançou-a, devagar e delicadamente. Era um acontecimento para ela. Sobretudo porque não saía havia muito tempo — seu pai a mantinha em um regime de confinamento durante todo o tempo que ela permanecia em seu apartamento.

Todos os seus pensamentos se foram. Podia ouvir seus colegas conversando ao seu redor. Podia sentir a presença de seus corpos, o calor das suas mãos sujas de terra. Ela estava profundamente grata à vida, que lhe dava tanto…

Agora peço parcimônia ao leitor atento, pois a história, aqui e agora, se divide em três desfechos diferentes.

Desfecho Número 1 — Sorrindo para Sempre

O sinal soou estridentemente anunciando o fim do período e a volta para casa.

— Até amanhã, crianças. Não esqueçam de trazer o papel de autorização à ida ao zoológico assinado pelos seus papais e mamães, hein? — finalizava a aula, Clara.

Isabella estava faminta já a essas horas — seu pai nunca colocava seus lanches preferidos em sua lancheira, e já tinha desperdiçado toda a energia açucarada de seu café da manhã.

Lançou-se aos braços de sua mãe ao vê-la, num misto de agitação e felicidade.

— Tudo bem, filha? Brincou bastante hoje?

— Sim! — e abriu um sorriso estonteante.

— Desculpe-me eu ter demorado mais para vir. Tive que resolver uns problemas no trabalho. Vamos demorar mais um pouco ainda, porque temos que passar no seu pai pegar umas coisas.

— Ah, temos mesmo? — o sorriso desapareceu quase instantaneamente.

— Receio que sim. Tenho que pegar um cheque da pensão. Não tenho dinheiro para passar essa semana. — abaixou a cabeça, num gesto de embaraço.

No carro as duas cantavam as músicas do rádio juntas. Fazendo caras e bocas interpretando todas as cantoras do mundo. Divertiam-se.

O tráfego repentinamente parou por completo. E estavam a três quadras apenas do prédio de Alexandre. Parecia uma batida de carro.

Ana pulou do assento quando reconheceu com dificuldade o carro de Alexandre ao longe. Foi difícil de reconhecer, é verdade — o carro se encontrava praticamente em pedaços. Tirou o cinto de segurança e correu o mais rápido que pôde. Isabella sem saber o que se passava começou a gritar aflita pela mãe.

Alexandre morrera instantaneamente. Foi totalmente indolor, garantiu um policial à Ana, após meia hora tentando acalmá-la. Ela ainda não tinha se desvinculado afetivamente dele. E chorava pela pobre Isabella também. Dias difíceis estavam por vir, sabia disso. Ana não ia muito bem no emprego. Sua única esperança era saber se Alexandre tinha alguma espécie de seguro de vida. Ele comentara sobre algo do tipo um tempo atrás.

Ana foi à delegacia. Após esperar duas horas com Isabella no colo, que estava desmaiada de cansaço — desde aquela hora não comera nada —, foi atendida por um policial que se aproximou rapidamente.

— Aqui estão os pertences de seu ex-marido que conseguimos recuperar do acidente. O culpado não foi o seu marido. Um ônibus perdeu o freio e bateu com toda força na lateral do carro, matando-o na hora.

Ele entregou à Ana um castiçal, uma corda, uma tesoura, uma troca de roupa, a carteira e a maleta do trabalho dele. O policial guardou tudo em uma sacola e deu nas mãos de Ana, que recebeu com hesitação.

Na carteira havia algum dinheiro e alguns cartões — o suficiente para uma semana, se economizassem. O policial a informou de algum seguro de vida. Ela precisaria assinar alguns papéis depois.

Ao olhar o testamento, Ana teve um surto psicótico. Menos de um quinto do dinheiro ia para Isabella. Do restante, metade do dinheiro era para a mãe dele e a outra metade para a sua atual esposa, que estava a caminho.

O dinheiro daria para sustentar Isabella por apenas dois anos.

Ana estava fatigada. Não conseguia mais articular pensamentos. E seus braços estavam doendo muito, de tanto segurar Isabella. Foram embora para a casa. Já era noite. Ao despertar, Isabella lembrou-se da morte de seu pai. Chorou por alguns dias. Chorava mesmo quando não tinha mais lágrimas…

Uma semana se passou e já nem se lembrava mais do ocorrido. Estava acostumada à sua nova rotina sem o pai. Ana havia se recomposto e cuidava muito bem de Isabella — aprendera a fazer o papel de pai e de mãe ao mesmo tempo.

Era uma nova e agradável manhã de Outono. Isabella chegara à escola. De repente começou a rir e correr em direção ao balanço, que não via desde a semana passada…

Desfecho Número 2 — A Madrasta

Todos os alunos já estavam acomodados nas salas de aula — o intervalo tinha terminado. Clara entrou na sala sorrindo, como sempre.

Estava com um bilhete na mão.

— Isabella! Tenho um recado para você, querida. A sua mãe está muito ocupada no trabalho. E quem virá buscar você hoje será Carolina.

Carolina era a madrasta de Isabella. Ela possuía no olhar algo de perverso. Tinha uma postura de mulher moderna, e estava sempre na moda. Morava com Alexandre fazia alguns anos já. Não possuía filhos com ele, e nem pretendia. Odiava crianças. E era infértil de qualquer forma.

Isabella não gostou da notícia, mas não tinha nada o que fazer a respeito. Na verdade mesmo, não gostava de ficar sendo empurrada de um lado para o outro desse jeito. Ela queria tanto uma família normal, como todos seus coleguinhas…

Já tinha passado do meio-dia. Carolina chamava por Isabella sem sair do carro. E buzinava incessantemente. Além de tudo, era muito impaciente, particularmente com crianças muito pequenas.

— Anda logo, Isabella, não tenho o dia todo. — gritava.

Isabella mal fechara a porta do carro, e Carolina saiu bruscamente. Como se aqueles cinco minutos pudessem mudar toda uma vida.

Carolina não iria trabalhar aquela tarde. Ela não gostou nem um pouco da idéia de Ana não ter ficado com a pobre menina. A única tarde livre de sua semana teria que gastar vigiando a “diabinha”, como a chamava.

— E ainda nem é minha filha, a desgraçada. — pensava.

Isabella chegou faminta no apartamento e foi direto para a cozinha. Logo em seguida, Alexandre chegou. Sempre almoçava em sua própria casa. Seu trabalho não era muito longe dali.

— Querida, trouxe um presente para você.

Deu um embrulho à Carolina. Isabella a fitou enciumada, enquanto Carolina abria o presente olhando fixadamente nos olhos de Isabella. Era um castiçal banhado a ouro e bem pesado. Algumas semi-joías jaziam encrustadas no metal bem polido.

Era o tipo de coisa que Carolina adorava. Logo pôs o castiçal em um lugar de destaque na estante da sala.

Alexandre comeu rapidamente e já saiu de novo. Era um daqueles dias corridos.

Isabella depois de almoçar foi brincar em seu quarto. Deixando Carolina lendo sozinha na sala.

Isabella não era uma garota de muitos amigos — não era difícil de encontrá-la brincando sozinha. Não reclamava. Nunca passava tempo demais em um só lugar para ter tempo de consolidar uma amizade. Já mudara de escola três vezes. E estava no segundo ano.

Carolina era uma mulher muito bonita, dissipava luxo e vaidade. Não era raro vê-la em grandes eventos sociais pela cidade. Não obstante, não era difícil de encontrá-la com homens que não seu marido. Luxúria era seu pecado predileto.

Ela possuía um certo ciúmes de Isabella. No fundo, queria muito ter um filho com Alexandre. Ao menos para segurar o casamento, que não ia muito bem havia um tempo. O salário de Alexandre era muito superior ao seu. E era tal salário que sustentava todo o seu luxo.

— Ah! De pensar que um terço do salário dele vai para a “diabinha”. — falava para si mesma, enquanto folheava seu livro e idolatrava seu castiçal dourado.

O telefone tocou. Era Alexandre dizendo que trabalharia durante a noite novamente. De fato era um dia muito corrido para ele.

Carolina sorriu para si, ao desligar o telefone. Jogou o livro no chão e logo foi verificar o que Isabella estava fazendo. Ela dormia profundamente.

Seu sorriso alargou-se. Pensou em chamar Rogério para passar a noite com ela. A essas horas ele estava saindo do trabalho. Não hesitou em discar rapidamente seu número.

Em meia hora a campainha tocou. Ela abriu a porta. Era de um tipo atlético, os curtos cabelos negros estavam totalmente desfeitos, como se tivesse acabado de acordar. Tinha olhos verdes, como os de Carolina.

Foram para a suíte principal quase que imediatamente.

Isabella inocentemente acordou e foi chamar Carolina no quarto. Ao abrir a porta se deparou com um estranho e assustou-se:

— Carol… Este não é o papai…

Carolina avançou nela como um cão esfomeado avança sobre um pedaço de carne. Agarrou-a pelos braços, sacudiu-a no ar e a arremessou ao chão. Estava possessa.

— Você não vale um almoço, menina! Estou farta de você e sua intromissão na minha vida!

Correu para a sala e pegou o castiçal. Ao voltar, Isabella rastejava em direção ao seu quarto. Arrependera-se de ter saído de lá. Carolina ria ruidosamente. Seus olhos tingidos de vermelho imprimiam o que havia de assutador em sua alma.

Partiu para cima de Isabella novamente e deu-lhe uma pancada na cabeça com o castiçal. Isabella juntou suas forças para gritar:

— Pára! Pára! Pai! Pára! Pai!

Carolina não economizou força na próxima investida, calando Isabella que agora só conseguia gemer de dor, levando as mãos à cabeça. Murmurava alguma coisa ininteligível. Carolina bateu de novo com o castiçal. Isabella cuspia sangue agora. Não mais possuía voz para gritar por socorro. Tentava rastejar em direção à porta de seu quarto, mas Carolina a impedia de prosseguir.

Num último ímpeto de fúria, Carolina rasgou a rede da janela do quarto de Isabella e a arremessou seis andares abaixo. Pôde escutar o som seco que o corpo dela fez ao tocar o solo.

Sentia-se aliviada agora. E tremendamente segura — seu segredo estava a salvo. Rogério assustara-se com Isabella e fugira de medo, antes mesmo de Carolina pegar o castiçal.

Carolina sentou-se à mesa e esperou por Alexandre calmamente.

Quando ele chegou, ela serviu duas taças de vinho tinto e comentou que Isabella se matara durante a tarde. Ele abriu sua maleta e bradou:

— Então não vou mais precisar disto… — tirou uma corda e uma tesoura de lá.

Olhou sem querer para a estante e notou que dali sumira o castiçal. Perguntou para Carolina se ela havia o mudado de lugar…

— É uma longa história, querido. Uma longa história…

Desfecho Número 3 — O Instinto Selvagem

A sirene para entrar na sala ressoou por toda a escola. Isabella não queria entrar na sala de aula e se escondeu no banheiro. Às vezes gostava de pregar peças em todo mundo.

Não se comportava muito bem na escola. As professoras a chamavam de “garota problema”. As pedagogas achavam que era por ela ter uma infância agitada demais. Pais separados, freqüentemente tinha que ficar sob os cuidados da madrasta, não possuía amigos, e uma série de outros fatores colaboravam para seu isolamento social.

Estava tudo calmo já. Podia sair do banheiro. Vagou sozinha pela escola por um tempo até entrar em uma sala de aula vazia. Dirigiu-se a um grande aquário de vidro onde um hamster brincava sossegado. Não hesitou em pegar uma tesoura e cortá-lo vivo.

Começou a rir e a se lambuzar com o sangue ainda quente do pobre animalzinho. Pegou e cortou a pele do bicho que ainda agonizava. Fez uns orifícios para seus dedos e se deu uma luva. Já podia retornar para sua sala de aula.

Aterrorizada, Clara chamou a diretora e os coordenadores. Alguma coisa precisava ser feita. Todos os alunos da sala se agitaram. Alguns choravam, outros tinham medo de se aproximar de Isabella. Ela sorria imensamente.

Ligaram para Ana. Ela largou o trabalho e foi imediatamente para lá. Ela avisou Alexandre também sobre o ocorrido. Ana pegou Isabella e a levou ao apartamento de Alexandre, que já estava esperando por elas.

Ana tinha urgência. Não podia ficar com Isabella aquela tarde.

Alexandre se ofereceu. Tinha a tarde livre mesmo. Isabella adormeceu logo após tomar um banho e tirar todo o sangue de sua pele.

Acordou quando já era noite. Alguma coisa estranha se passava em seu quarto. Escutava vozes que davam ordens esquisitas para ela. Primeiro mandaram ela ir para a sala, onde seu pai conversava com Carolina, sua madrasta. Falavam mal dela. Pelo menos era o que Isabella escutava de sua madrasta:

— Por que nós não damos um fim de uma vez por todas nessa garota, amor? Vai liberar mais dinheiro do seu salário! Aquela pensão é tão abusiva, não é?

Isabella deixou escapar uma lágrima e um soluço.

Alexandre e Carolina olharam para a porta e puderam reconhecer Isabella. Ao ser notada, a menina saiu correndo para o quarto.

O casal descansou as taças de vinho sobre a mesa de centro e Alexandre foi ver se a filha estava bem.

Ao chegar no quarto a menina se debatia. Se jogava de um lado para o outro e ria muito. Parecia estar possessa por algum espiríto pungente. O pai paralisou-se diante de tal comportamente nunca antes visto.

— Vou acabar com a sua vida! — ela bradou ao seu próprio pai, entre uma pancada e outra que dava na parede.

Ela gritava a plenos pulmões:

— Pára, pai! Pára, pai! Socorro! Socorro! Pára, pai!

Olhou funestamente para o pai antes de cortar a rede de sua janela com a tesoura que matara o hamster e pular. Caiu por seis andares inteiros. Quando chegou ao chão ainda estava viva. Podia sentir seu coração pulsando, talvez efeito da adrenalina então liberada no salto. Sentia muita dor por todo o corpo. Seu corpo seria o preço que teria que pagar para destruir a vida do pai.

Ela pensara em tudo. Seu pai seria incriminado por matar a própria filha. E tudo o que ela tinha que dar era seu próprio corpo.

Fechou os olhos. As vozes desapareceram.

[Guilherme Krähenbühl~]

Written by Gui Krähenbühl in: Conto |

4 Comentários »

  • MNovaexNo Gravatar

    Eu comecei a ler e já vi Isabella. Minha vontade inicial é de colocar um programa de TV inteirinho no seu rabo. Mas vou terminar de ler.

    Responder

    Comentário | 11 de abril de 2008
  • MNovaexNo Gravatar

    Não leve isso como uma crítica, mas eu ri muito, e de verdade! Do começo ao fim… esse conto tem um quê de livro infantil mórbido.

    Vou esperar as pessoas lerem o conto antes de postar “spoilers”. Mas gostei sim.

    Responder

    Comentário | 11 de abril de 2008
  • Gui KrähenbühlNo Gravatar

    Ué… E quem disse que não era para ser engraçado? Quando eu o li para meu irmão ele riu demais também…

    Bom, depois eu comento no que eu pensei.

    Responder

    Comentário | 11 de abril de 2008
  • AlexandreNo Gravatar

    vc tomou tóxico antes do JN?

    Responder

    Comentário | 14 de abril de 2008

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