Ausência
Não me sinto bem.
Não me sinto mal, também.
Não me sinto. Simplesmente não sinto…
Estou vazio. Pior: sou vazio.
Não mais… Sou?
Um amigo há pouco me disse: “Eu, em seu lugar, certamente escreveria uma crônica desse tipo…”. Interessante. Como pode ser possível estar no lugar de algo ou alguém que não mais é nem existe, nesse exato momento?
Quem lhes escreve não é nada nem ninguém. Hoje, “eu” não sou e não pergunte o porquê, pois não há a quem perguntar. Já é bem difícil de se escrever quando não há sentimento nem conteúdo algum. Se isso vier a lhe acontecer um dia, saberá. Agora, é quase impossível quando se tem o fato de não haver também alguém para escrevê-lo. Não há como explicar o que se passa. Se disser que nada ou ninguém lhes escreve, ainda assim, há nada, há ninguém. Mas na verdade não há sujeito, nem há tempo. Não há ação ou objeto.
Uma pressão que dificulta a respiração. Mas não uma pressão vinda de fora, e sim um vazio por dentro que puxa para si tudo o que há em sua volta: aliás, não há mais como se dizer dentro ou fora, ademais, não há respiração. Se havia ou houve invólucro para tal vazio, foi há muito tempo, embora também medir o tempo seja algo completamente arbitrário nesse caso específico, no qual não há limites de início ou fim, pois não há nada dentre estes. Quando o vácuo se vai, o que toma seu lugar? Na realidade seria mais fácil de se escrever em Inglês. “To be” é bem mais adequado para atemporalidades sem limites como esta, visto que “ser” ou “estar” trás uma carga definidora implícita. Teria sido talvez mais fácil redigir em outra língua? Talvez…
Saudades, dor, tristeza, mágoa, raiva, ódio, por favor! Felicidade ou esperança seriam luxos pretensiosos em demasia, os quais nem se ousa cogitar, claro. É um pedido totalmente desesperado. Poder querer, para poder sentir, para finalmente poder ser novamente… “poder poder”.
3 Comentários »
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Ser é tão diferente de existir, não é mesmo? …
Mas relaxa, às vezes é demasiadamente difícil “ser” mesmo. “To be” ou “être” algumas vezes é impossível.
Uma dica? Pense! E seja, exista. ;D
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Ah! Uma crise cartesiana!
*Claro que não, Guilherme! Em tempos de crise se pede ação, e não pensamento. A fraqueza da razão, em contraste à sobriedade do ato, só gera círculos, quando se procura, na verdade, mudanças.
Até bom eu ter usado o termo “sobriedade” porque, Marcelo, acho que você está bêbado de silogismos. É como ficamos ao achar que nosso cérebro é capaz…
Depois da ressaca eu pude ver que, apesar de garantir nossa existência por ser posterior a ela, não é o pensamento que a define. Nem poderia ser, pelo que acabo de dizer. Ninguém vive, é, ou existe em teoria. A vida é ato praticado. Fato.
Sinto discordar mas minha dica é outra. Faça!
Poder querer para poder sentir para poder ser é andar pra trás. Você tem que ser para poder sentir para poder querer. Não inverta a cadeia.
Se você quer ser, saia da teoria, volte pra prática e seja logo!
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De fato, Alexandre, você tem um ponto, sobre o agir para ser, existir.
Mas estive pensando (sim, voltei a ser!), teria o fato deste artigo ser escrito portanto, agido, o estopim para a volta de meu ser? Ou voltei a me encontrar comigo mesmo dentro de meus sonhos noturnos? Estou confuso…
Mas definitivamente sentir-se confuso é um maravilhoso deleite, lembrando-me agora desse (______) dia.
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