O Mundo em uma Bolha de Sabão
Piracicaba, em 28 de setembro de 2007.
Era um dia em branco. Um dia de possibilidades infinitas. A tarde pareceu passar quase que instantaneamente, com poucas voltas lépidas dos ponteiros do relógio, que não parava de trabalhar.
Como se ainda não tivesse se dado conta, ele bradou num tom perplexo:
— Olhai, já é noite.
As pessoas riram e se calaram; como se fosse fácil entender quando e por que o dia se transforma em noite.
Prosseguiram a viagem pela noite. Uma viagem que, naquele instante, parecia não ter volta. As estrelas estavam encobertas pelas nuvens, aparentemente negras, mal se podia ver as árvores ao redor, que, embora verdejantes, sombrias se revelavam em meio a toda aquela escuridão.
Assim foi por duas horas. Até chegarem ao fabuloso destino da terra da fantasia. Onde beberam e conversaram alegremente ao som de músicas já esquecidas. Todos sorriam e todos estavam felizes.
Após algum tempo indeterminado, as pessoas começaram a bailar. Dançavam em largas passadas, girando ao ritmo inebriante da música que retumbava e fazia o chão vibrar. Tudo começava lentamente a fazer sentido. A vida ia ficando colorida, tal como realmente é.
Podia-se ver o mundo no reflexo de uma bolha de sabão. Todas as ilusões se misturavam em sensações nunca antes experimentadas. E a certeza de existir desaparecia gradualmente, na medida em que os pensamentos se confundiam com os sentimentos.
O significado da vida estava completo, enfim. E nada que alguém pudesse dizer mudaria aquilo. Queria prender aquele segundo fugaz, e pensou: “Haja o que houver, isso é a felicidade”.
Podia sentir o gosto do calor das pessoas. Podia sentir na pele as cores que mudavam com a música. Habitou, por um momento, as linhas de uma partitura, seu humor variava com as notas musicais, e estas, por sua vez, com as cores.
Era uma impressão mais extraordinária que a outra. E isso era tudo de que precisava. Surgia, assim, uma inexplicável ausência de tristeza, a qual não o deixava nem mais nem menos feliz.
O mundo estava perfeito — e numa bolha de sabão. Quando ele finalmente alcançou o mundo, este se desfez em pequenas gotas multicoloridas. A partir desse instante, pôde perceber quão efêmeras são as coisas. Que o tempo não podia voltar, ou parar, ou nem ao menos passar mais lentamente.
Mas isso não era de todo ruim. Porque ainda poderia se lembrar dos momentos vividos, das eternidades de recordações. Lembranças que seriam tão eternas quanto durasse o tempo. E isso não tinha preço. Por isso ele vivia… Pelas lembranças…
Vagava contente pelo mundo que acabara de criar, e que substituía o mundo anterior. Este novo mundo era uma nova bolha de sabão, ainda mais brilhante. Refratava a luz com destreza e possuía um perfume familiar, como o das rosas colhidas pela manhã.
Em seu mundo, um simples olhar era sentimento. Um gesto era capaz de representar todo o seu estado de espírito. E sem nenhuma palavra sequer, todos se entendiam. No final das contas era um mundo mágico. Um mundo de possibilidades…
Foi aí que ele olhou diretamente para os olhos de um amigo, e pôde sentir o infinito de sua alma, que pulsava inquieta; subitamente quis compartilhar sua alegria, que era deveras contagiante. Assim o fez: seu amigo, então, embarcou também nessa fantástica expedição pelo desconhecido. Viveram por uma noite inteira num mundo à parte. Apenas deles. Não havia regras. Não havia leis. Estavam livres, de uma vez por todas e sem retorno. Livres.
Um mundo dentro de outro mundo. Uma bolha dentro de outra bolha. E, no centro de tudo, a realidade estava a brilhar e a hipnotizá-los com suas cores. A percepção apurada deles vertia o universo em imagens, e as imagens em sinestesias. Para cada imagem, uma fotografia que jamais poderia existir —, pois não há no mundo cores suficientes para se retratar a realidade…
Quando se deram por si, os raios solares já haviam desvendado uma manhã primorosa e quente de primavera, e a música acabara. O ar caprichosamente ia se tornando leve e fresco, e enchia seus pulmões.
Puderam sentar-se à sombra de um novo mundo e relembrar os momentos vividos, as eternidades de recordações…
[Guilherme Krähenbühl~]
3 Comentários »
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“Puderam sentar-se à sombra de um novo mundo e relembrar os momentos vividos, as eternidades de recordações…”. Primoroso!
Só senti falta das alemãs de saia (agora, não na hora…). =(
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que ecstasyante
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: D
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