Diálogo I – Da paixão e do medo
O Diálogo Filosófico I se inicia exatamente às 4:17:36h, de uma madrugada chuvosa de sexta-feira…
Gui:
— Medo é ruim…
Marcelo:
— O medo foi o que fez o homem evoluir. Sem medo o homem seria como um animal.
Gui:
— Animal tem medo. O medo é inato ao homem.
Marcelo:
— Animal tem medo sim, mas não serviu a eles como serviu ao homem.
Gui:
— Hm… Medo é instintivo? Sendo instintivo, natural? Acho que sim… Medo é natural. Então de acordo com você, o medo ajudou a transformar o homem natural no homem civilizado?
Marcelo:
— Sim. Graças ao medo ele se situou num lugar fixo, fez armas, parou para pensar. Não foi o diferencial total. Isso foi o raciocínio aprimorado. Mas raciocínio não seria de nada útil sem o medo.
Gui:
— Não sei…
Marcelo:
— O medo é quem te faz parar. E parando, inevitavelmente você se prepara, pensa, tem uma vantagem sobre seu oponente, seja ele quem ou qual for.
Gui:
— Acho que existem coisas maiores que levaram o homem a fazer armas. Por exemplo, paixão… Do conceito de Diderot de paixão, que seria fome, desejo de se reproduzir, etc.
Marcelo:
— Eu acho que isso é mais biológico.
Gui:
— Mais natural que o medo.
Marcelo:
— É mais natural, mas não o diferencial da evolução. Sem o medo o homem tentaria comer de tudo e morreria. Tentaria se reproduzir com parceiras X e seria atacado por machos mais fortes.
Gui:
— Embora tenha uma teoria que diz que brigas entre seres humanos selvagens por fêmeas não existe.
Marcelo:
— Por quê?
Gui:
— Porque existiam muito mais fêmeas que machos… Hm… Sempre os desejos e temores… temores e desejos.
Marcelo:
— E daí…? Hoje em dia também.
Gui:
— Está bem, mas hoje em dia vivemos em sociedade… O homem pré-histórico, o que se aproximaria do homem natural, não tem a noção do amor moral… tudo é apenas amor físico, qualquer mulher lhe convém… Ele não tem noção de beleza, ele não tem idéias abstratas, senso de proporção… Idéias fundamentais para o amor moral.
Marcelo:
— Ok, e no que ele amar ajudou no pulo da evolução?
Gui:
— O amar veio com a evolução. Entende? O amor moral é posterior ao homem natural, veio com a sociedade. Ah! E outro argumento também: nas outras espécies nas quais há brigas entre machos, as fêmeas tem cios e/ou períodos de isolamento, na espécie humana isso não ocorre.
Marcelo:
— Como não?
Gui:
— Ah, é! Verdade… As mulheres só trasam na primavera mesmo.
Marcelo:
— É nada. Isso é de uns 15 mil anos pra cá. Ou menos. Sexo é algo psicológico desde então. Não é mais puramente biológico.
Gui:
— O que é de 15 mil anos pra cá, não ter cio? Sim, claro que não é puramente biológico! Estamos numa sociedade agora, tudo é diferente.
Marcelo:
— Na época. Porque mudanças climáticas afetam isso.
Gui:
— Isso não ocorre na espécie humana!!! Na verdade, o homem começou a brigar com outro homem por uma fêmea só quando surgiu o amor psicológico, o amor moral.
Marcelo:
— E por que os outros animais brigam entre si por fêmeas?
Gui:
— Os outros animais brigam porque em primeiro lugar: geralmente a proporção de fêmeas é menor…. Segundo: no resto dos animais as fêmeas tem cios, por exemplo, pensa que se as fêmeas transam 2 meses por ano apenas, a proporção “relativa” de fêmeas parece 5 vezes menor… Quando existia o amor físico apenas, qualquer fêmea servia para qualquer homem, e se a proporção de fêmeas era maior, e a disponibilidade delas não tinha limite, não havia o porquê de brigas… Em outras espécies, acontecia o oposto….
Marcelo:
— Pense comigo… Macacos têm cio? Nos princípios todos tinhamos períodos de cio, oras. Viemos todos da mesma coisa
Gui:
— Eles tem períodos de isolamento… Eu realmente não sei…. Mas digo, imagine o homem tal como é hoje fisicamente, e passe isso até o primeiro homem, o mais selvagem possível… Eis o homem do qual estou falando. Esqueça esse “quase-homem” de transição… que seria um animal, não um homem em si…
Marcelo:
— Hm… Sua explicação é porque não tem cio então?
Gui:
— Do homem selvagem do qual eu estou falando, sim, não tem cio e/ou período de isolamento… E o outro argumento é que a proporção de fêmeas sempre foi maior. Junto ao fato do homem natural não conhecer o amor moral… claro.
Marcelo:
— Está bem, e no que isso reforça o fato de que a escolha das fêmeas era devido a fatores psicológicos? Em que o fato de não brigar entre si por não haver cio ajudou em pró disso?
Gui:
— Não havia escolhas. Hoje em dia, o homem escolhe…. antes, não tinha por que escolher… Na verdade, o fato deles não brigarem entre si não ajudou isso…
Conclusão primeira:
Antigamente, quando não existiam sociedades e o homem se encontrava no estado mais natural possível, não havia brigas por fêmeas. O homem não tinha medo de outros machos ao procurar parceira para se reproduzir. Aqui a paixão fica evidente no âmbito de “necessidade de reprodução”. O homem natural estava mais preocupado em se defender de um mal, que causar um mal a outrém.
O diálogo, então, retorna ao tema principal, da paixão, e do medo:
Gui:
— O amor seria uma “preferência” de um homem por uma mulher X. Ele prefere por “comparação”, por senso de “diferente”. Coisa que o homem selvagem não tinha… Senso! Ele estava aparte disso… e se sentia bem aparte disso.
Marcelo:
— Assim como os óculos e afins. Sim, mas a biologia é mais forte que a psicologia nisso. Esse é meu ponto. Sinceramente, 90% dos homens no mundo preferiria casar e ter filhos com uma gostosa sem doenças a casar com uma outra mulher. Porém por causa da civilização moral, outra coisa artificial, ele nao pode simplesmente conquistar pela força normalmente.
Gui:
— O Homem Natural estavam mais preocupado em se defender de um mal a causar um mal a outro.
Marcelo:
— Medo…! Meu ponto é que a biologia explica a preferência de alguém por outra pessoa em sua quase totalidade.
Gui:
— Não… Não é biológico… O amor é psicológico… Paixões são biológicas. Paixão é fome, desejo. O amor vem depois… é um tipo de paixão mais sofisticada.
Marcelo:
— Está bem, ou seja, ele não foi o diferencial!
Gui:
— Não! Já que veio junto com a transição…. Não é a causa, é o efeito.
Marcelo:
— Mas lá em cima você dizia que o diferencial não era o medo, era a paixão. Diderot, etc.
Gui:
— Desejos e temores dizem tudo. Os desejos seriam as paixões, e os temores o medo. As paixões elementares reduzem-se a três desejos e um temor: o desejo de nutrição, o de reprodução e o de repouso; e o temor da dor.
Marcelo:
— E o que ajudou no “fator pensar ” foi a paixão ou o medo?
Gui:
— Os dois!
Marcelo:
— Como a fome, paixão, etc… ajudaram nisso?
Gui:
— Busca por comida, leva a armas! Plantar a própria comida, leva a ferramentas, metalurgia, etc… Propriedade!
Marcelo:
— Armas não é paixão. Armas é medo.
Gui:
— Armas para caçar. Arco e flecha, vara de pescar. É facilitar. É suprir necessidade, de tempo e demanda.
Marcelo:
— Isso é tudo medo. Não vê? O que faz ele criar armas não é querer comer, é ter medo de enfrentar o bicho mano a mano. Arma tem muito mais a ver com medo do que com paixão… Suprir necessidade ele pode suprir matando roedores, bichos bestas por ai.
Agora por que ele tem propriedade? Por que ele precisa da metalurgia? Medo.
Gui:
— Justamente isso. Metalurgia levou à propriedade, o maoir e definitivo passo da transição Homem Natural para o Homem Civil …. agora, foi pelo medo mesmo?
Marcelo:
— Você está considerando paixão como suprir necessidades biológicas. Então se é medo por que você diz acima que é paixão?
Gui:
— Não… Como já disse tem as duas causas. Não é somente uma, ou outra. O que ajudou no “fator pensar ” foi a paixão e o medo.
Marcelo:
— Não é somente isso, mas é o fato majoritário. Até porque em ambos os casos nos apoiamos no fato cérebro. Quero dizer que paixão foi algo abstolutamente minimo nesse caso.
Gui:
— Paixão é qualquer tipo de desejo. Se eles não tivessem desejos, não teriam armas.
Marcelo:
— Mas isso não foi o diferencial para a evolução. Armas são meios mais efetivos. Animais também têm fome, etc. Alguém “apaixonado” perde capacidade racional, não ganha e estou falando num sentido amplo. Alguém com medo ganha em raciocínio, tende a ser cuidadoso. Estamos falando no fator que mais influenciou e ajudou a capacidade cognitiva do homem a se desenvolver…
Gui:
— Animais também têm medo. O homem sempre procura o bem-estar.
Marcelo:
— Sim, mas quem proporciona melhorias na busca deste não é ele mesmo, é o medo. Medo de ter que entrar, lutar, pegar o peixe, se afogar.
Gui:
— Quero dizer outra coisa. Por exemplo, medo de morrer… O selvagem não tinha porque não conhecia a morte, não sabia o que era.
Marcelo:
— Sim, mas é para ilustrar como uma vara de pescar é um efeito do medo. Sim, e paixão e suas necessidades fizeram com que sobrevivesse para contar sua história…
Gui:
— Medo da dor pode ser considerado paixão, porque seria a busca por uma posição agradável, de repouso, bem-estar. Nessa sua concepção de medo abrange todas as paixões possíveis, de certa forma. Ou seja, paixões e medos estão fundidos em um só.
Marcelo:
— Não concordo. Medo é receio de ser desagradável.
Gui:
— Medo é receio de ser desagradável, paixão é busca pelo agradável…. Basta inverter tudo… E pronto, é a mesma coisa.
Marcelo:
— Mas paixão não é busca pelo agradável…
Gui:
— Eu não vejo como uma vara de pescar pode ser produto do medo e não da paixão.
Marcelo:
— Não da paixão a qual você se refere.
Gui:
— Nutrição! Fome é uma paixão. É um desejo.
Marcelo:
— A paixão pela pesca de hoje em dia teria mais a ver, por exemplo. Mas não é sobre isso que discutimos, é sobre qual mais influenciou junto à inteligencia.
Gui:
— A inteligência já estava presente no homem. E não em outros animais. São pré-definições para que possamos ter um diálogo.
Marcelo:
— Sim, sim, sim… Mas não é sobre isso que discutimos. A inteligência é algo óbvio. Estamos discutindo o que ajudou mais a desenvolvê-la.
Gui:
— A evolução do homem é devido a ela. Eu defendo que as duas coisas — paixão e medo — ajudaram. Eu não defendo um fator majoritario.
Marcelo:
— Eu defendo que o medo foi o fator majoritário. Então, mas eu acho que o fator não puramente biológico que ajudou a desenvolver a inteligência foi esse principalmente, o medo. Porque o medo que pensamos hoje em dia é o terror.
Gui:
— Outra coisa que diferencia o homem dos animais é a liberdade de querer e não querer… Desejar…
Marcelo:
— Mas eu considero o medo como a aflição, o incômodo, é isso que faz o ser humano a pensar no que seria mais efetivo.
Gui:
— Acho que tem todo um progresso contínuo. Depois vem a curiosidade também. Muito importante.
Marcelo:
— Sim, mas a curiosidade é despertada pela paixão e contida pelo medo, ela é conseqüencia. Mas isso é posterior. Estamos falando do que antecede tudo.
Gui:
— Sim. Que para mim é: nutrição, medo da dor, repouso (bem-estar), e reprodução. Ou seja, paixão.E medo. Ah, sim, como eu disse, a curiosidade vem depois.
Marcelo:
— O que quero dizer é: um animal com 90% paixao 10% medo morre fácil, fácil. O contrário dura muito mais. E hoje em dia isso se reflete perfeitamente.
Gui:
— Mas paixão é medo da dor também… Quero dizer, a de Diderot…
Marcelo:
— Por que é medo da dor? É paixão pela vida?
Gui:
— Vida, morte…. Ele não sabia o que era… Pensa que o Homem Natural não morava em sociedade com outros homens. Mas ele sabia o que era dor, como todo animal, e temia sentir dor.
Marcelo:
— Sim, sim. Ele sabe que quando ele se corta é ruim e dói. E ele prefere não sentir isso, o que poderia ser uma certa paixão pelo bem estar, que nada mais é que a fuga do incômodo, da aflição.
Gui:
— Aí que medo e paixão se fundem. Busca pelo bem-estar, repouso… Na minha cabeça as idéias estão claras e distintas. Isso que está faltando. As idéias claras distintas de paixão e medo.
Marcelo:
— Mas no início e no fim, você tem o medo. O medo é a origem e o fim da coisa. Pois ele será cuidadoso quando for andar, por exemplo. Para manter o bem-estar e para evitar a aflição. Pensemos hoje em dia nos estados primitivos da coisa. Você acha que o cara usar tarrafas e choques elétricos para pegar peixes tem mais a ver com paixão ou medo?
Medo gera efetividade, paixão não.
Gui:
— Depende… Se paixão for vontade de comer… Antes o homem vai pescar quando ele está sozinho, sem sociedade, no estado natural, no início de tudo. O próximo passo é a concorrência… Homens disputando por comida, mas logo essa fase passa, porque o homem com sua inteligência percebe que é melhor eles se unirem para conseguirem seus propósitos comuns.
Marcelo:
— Está bem, ele vai pescar, se corta, dá trabalho, ele sua, ele demora. Aflige-se. O cara não pega um bicho grande com arco e flecha porque ele é apaixonapo por comida, mas porque dá menos trabalho que pegar 10 coelhos.
Gui:
— Quando eles começam a morar em choças, surge a primeira forma de sociedade…. É mais fácil construir uma cabana para si que desocupar uma outra…. Assim surge o amor moral (conjugal, paternal, etc) Dai surge uma demanda maior — necessitando de métodos mais eficazes para se obter comida —, que antes não existia, porque antes o homem era só, não tinha família, sociedade.
Marcelo:
— E concorrência é medo de ficar sem, medo de extinção. É mais facil construir uma cabana para si que desocupar uma outra denota afliçao, medo. Não é paixão pelo lugar que ele está. É a afliçao de ter que mudar constantemente. O medo gera a sociedade. E não a paixão. Medo gera a efetividade. Esse é meu ponto. Paixão é essencial à sobrevivência no sentido de necessidades biológicas. Mas paixão não é necessária à evolução. O medo é. O medo é a aflição, o incômodo. É ele que faz alguém ver uma mesa quadrada que é ruim para sentar e fazer algo rendondo e confortável. É ele que faz o homem viver junto com outro pra facilitar a vida e assim ter tempo pra evoluir.
Gui:
— É busca pelo bem-estar: paixão. É repouso.
Marcelo:
— E tendo esse medo ele evita a situação, depois disso surge a paixão por esse bem-estar. Começando do zero, ele sente medo antes dessa paixão.
Um bebê só se alimenta porque o medo dos pais de ele morrer desnutrido existe.
Gui:
— Mas e a vontade do bebê em se alimentar? E a paixão dos pais pela reprodução?
Marcelo:
— Mas eu digo que a paixão pelo bem-estar é diferente de medo.
Um implica no outro.
Gui:
— Eu quero dizer que estão fundidos.
Marcelo:
— Reprodução você estava a usar como o cio e copula.
Gui:
— Não… Estava junto com nutrição, repouso e medo da dor, junto com paixão, de uma forma geral.
Marcelo:
— Mesmo assim, ele ajuda a sobreviver, não evoluir. Essa é a chave. Sobreviver os animais sobrevivem ate hoje. Diderot garante a vida com seu conceito, mas não garante a evolução, o descontento com a coisa, a aflição, o incômodo.
Bom, acho que podemos concluir que para evolução em auxílio ao fator cognitivo humano, o rapaz que mais ajudou foi o sr. Medo.
Gui:
— Na sua concepção de medo, receio que devo concordar, embora haja uma intersecção com a minha concepção de paixão.
Conclusão última:
Paixão e medo são conceitos chaves para o entendimento da evolução do ser humano — do seu estado natural para seu estado civil, tal como o conhecemos hoje. O medo e a paixão são princípios inatos ao homem. As idéias de medo e paixão não são idéias claras e distintas, dessa forma, tudo indica que há uma correlação entre paixão e medo. O medo da dor é uma paixão, por exemplo. A paixão pela vida da cria, pela reprodução, denota o medo dos progenitores em perder seus filhotes. Dessa forma, fica claro expor que a evolução do homem tem como princípios básicos o medo e a paixão, e que estes princípios não podem pura e simplesmente serem separados. O que difere o homem de outros animais é a sua inteligência, que aliada a sua engenhosidade e às paixões e, por sua vez, aos medos, fez com que o homem pudesse enfim evoluir.