nov
10
2007

Diálogo I – Da paixão e do medo

O Diálogo Filosófico I se inicia exatamente às 4:17:36h, de uma madrugada chuvosa de sexta-feira…

Gui:
— Medo é ruim…

Marcelo:
— O medo foi o que fez o homem evoluir. Sem medo o homem seria como um animal.

Gui:
— Animal tem medo. O medo é inato ao homem.

Marcelo:
— Animal tem medo sim, mas não serviu a eles como serviu ao homem.

Gui:
— Hm… Medo é instintivo? Sendo instintivo, natural? Acho que sim… Medo é natural. Então de acordo com você, o medo ajudou a transformar o homem natural no homem civilizado?

Marcelo:
— Sim. Graças ao medo ele se situou num lugar fixo, fez armas, parou para pensar. Não foi o diferencial total. Isso foi o raciocínio aprimorado. Mas raciocínio não seria de nada útil sem o medo.

Gui:
— Não sei…

Marcelo:
— O medo é quem te faz parar. E parando, inevitavelmente você se prepara, pensa, tem uma vantagem sobre seu oponente, seja ele quem ou qual for.

Gui:
— Acho que existem coisas maiores que levaram o homem a fazer armas. Por exemplo, paixão… Do conceito de Diderot de paixão, que seria fome, desejo de se reproduzir, etc.

Marcelo:
— Eu acho que isso é mais biológico.

Gui:
— Mais natural que o medo.

Marcelo:
— É mais natural, mas não o diferencial da evolução. Sem o medo o homem tentaria comer de tudo e morreria. Tentaria se reproduzir com parceiras X e seria atacado por machos mais fortes.

Gui:
— Embora tenha uma teoria que diz que brigas entre seres humanos selvagens por fêmeas não existe.

Marcelo:
— Por quê?

Gui:
— Porque existiam muito mais fêmeas que machos… Hm… Sempre os desejos e temores… temores e desejos.

Marcelo:
— E daí…? Hoje em dia também.

Gui:
— Está bem, mas hoje em dia vivemos em sociedade… O homem pré-histórico, o que se aproximaria do homem natural, não tem a noção do amor moral… tudo é apenas amor físico, qualquer mulher lhe convém… Ele não tem noção de beleza, ele não tem idéias abstratas, senso de proporção… Idéias fundamentais para o amor moral.

Marcelo:
— Ok, e no que ele amar ajudou no pulo da evolução?

Gui:
— O amar veio com a evolução. Entende? O amor moral é posterior ao homem natural, veio com a sociedade. Ah! E outro argumento também: nas outras espécies nas quais há brigas entre machos, as fêmeas tem cios e/ou períodos de isolamento, na espécie humana isso não ocorre.

Marcelo:
— Como não?

Gui:
— Ah, é! Verdade… As mulheres só trasam na primavera mesmo.

Marcelo:
— É nada. Isso é de uns 15 mil anos pra cá. Ou menos. Sexo é algo psicológico desde então. Não é mais puramente biológico.

Gui:
— O que é de 15 mil anos pra cá, não ter cio? Sim, claro que não é puramente biológico! Estamos numa sociedade agora, tudo é diferente.

Marcelo:
— Na época. Porque mudanças climáticas afetam isso.

Gui:
— Isso não ocorre na espécie humana!!! Na verdade, o homem começou a brigar com outro homem por uma fêmea só quando surgiu o amor psicológico, o amor moral.

Marcelo:
— E por que os outros animais brigam entre si por fêmeas?

Gui:
— Os outros animais brigam porque em primeiro lugar: geralmente a proporção de fêmeas é menor…. Segundo: no resto dos animais as fêmeas tem cios, por exemplo, pensa que se as fêmeas transam 2 meses por ano apenas, a proporção “relativa” de fêmeas parece 5 vezes menor… Quando existia o amor físico apenas, qualquer fêmea servia para qualquer homem, e se a proporção de fêmeas era maior, e a disponibilidade delas não tinha limite, não havia o porquê de brigas… Em outras espécies, acontecia o oposto….

Marcelo:
— Pense comigo… Macacos têm cio? Nos princípios todos tinhamos períodos de cio, oras. Viemos todos da mesma coisa

Gui:
— Eles tem períodos de isolamento… Eu realmente não sei…. Mas digo, imagine o homem tal como é hoje fisicamente, e passe isso até o primeiro homem, o mais selvagem possível… Eis o homem do qual estou falando. Esqueça esse “quase-homem” de transição… que seria um animal, não um homem em si…

Marcelo:
— Hm… Sua explicação é porque não tem cio então?

Gui:
— Do homem selvagem do qual eu estou falando, sim, não tem cio e/ou período de isolamento… E o outro argumento é que a proporção de fêmeas sempre foi maior. Junto ao fato do homem natural não conhecer o amor moral… claro.

Marcelo:
— Está bem, e no que isso reforça o fato de que a escolha das fêmeas era devido a fatores psicológicos? Em que o fato de não brigar entre si por não haver cio ajudou em pró disso?

Gui:
— Não havia escolhas. Hoje em dia, o homem escolhe…. antes, não tinha por que escolher… Na verdade, o fato deles não brigarem entre si não ajudou isso…

Conclusão primeira:

Antigamente, quando não existiam sociedades e o homem se encontrava no estado mais natural possível, não havia brigas por fêmeas. O homem não tinha medo de outros machos ao procurar parceira para se reproduzir. Aqui a paixão fica evidente no âmbito de “necessidade de reprodução”. O homem natural estava mais preocupado em se defender de um mal, que causar um mal a outrém.

O diálogo, então, retorna ao tema principal, da paixão, e do medo:

Gui:
— O amor seria uma “preferência” de um homem por uma mulher X. Ele prefere por “comparação”, por senso de “diferente”. Coisa que o homem selvagem não tinha… Senso! Ele estava aparte disso… e se sentia bem aparte disso.

Marcelo:
— Assim como os óculos e afins. Sim, mas a biologia é mais forte que a psicologia nisso. Esse é meu ponto. Sinceramente, 90% dos homens no mundo preferiria casar e ter filhos com uma gostosa sem doenças a casar com uma outra mulher. Porém por causa da civilização moral, outra coisa artificial, ele nao pode simplesmente conquistar pela força normalmente.

Gui:
— O Homem Natural estavam mais preocupado em se defender de um mal a causar um mal a outro.

Marcelo:
— Medo…! Meu ponto é que a biologia explica a preferência de alguém por outra pessoa em sua quase totalidade.

Gui:
— Não… Não é biológico… O amor é psicológico… Paixões são biológicas. Paixão é fome, desejo. O amor vem depois… é um tipo de paixão mais sofisticada.

Marcelo:
— Está bem, ou seja, ele não foi o diferencial!

Gui:
— Não! Já que veio junto com a transição…. Não é a causa, é o efeito.

Marcelo:
— Mas lá em cima você dizia que o diferencial não era o medo, era a paixão. Diderot, etc.

Gui:
— Desejos e temores dizem tudo. Os desejos seriam as paixões, e os temores o medo. As paixões elementares reduzem-se a três desejos e um temor: o desejo de nutrição, o de reprodução e o de repouso; e o temor da dor.

Marcelo:
— E o que ajudou no “fator pensar ” foi a paixão ou o medo?

Gui:
— Os dois!

Marcelo:
— Como a fome, paixão, etc… ajudaram nisso?

Gui:
— Busca por comida, leva a armas! Plantar a própria comida, leva a ferramentas, metalurgia, etc… Propriedade!

Marcelo:
— Armas não é paixão. Armas é medo.

Gui:
— Armas para caçar. Arco e flecha, vara de pescar. É facilitar. É suprir necessidade, de tempo e demanda.

Marcelo:
— Isso é tudo medo. Não vê? O que faz ele criar armas não é querer comer, é ter medo de enfrentar o bicho mano a mano. Arma tem muito mais a ver com medo do que com paixão… Suprir necessidade ele pode suprir matando roedores, bichos bestas por ai.
Agora por que ele tem propriedade? Por que ele precisa da metalurgia? Medo.

Gui:
— Justamente isso. Metalurgia levou à propriedade, o maoir e definitivo passo da transição Homem Natural para o Homem Civil …. agora, foi pelo medo mesmo?

Marcelo:
— Você está considerando paixão como suprir necessidades biológicas. Então se é medo por que você diz acima que é paixão?

Gui:
— Não… Como já disse tem as duas causas. Não é somente uma, ou outra. O que ajudou no “fator pensar ” foi a paixão e o medo.

Marcelo:
— Não é somente isso, mas é o fato majoritário. Até porque em ambos os casos nos apoiamos no fato cérebro. Quero dizer que paixão foi algo abstolutamente minimo nesse caso.

Gui:
— Paixão é qualquer tipo de desejo. Se eles não tivessem desejos, não teriam armas.

Marcelo:
— Mas isso não foi o diferencial para a evolução. Armas são meios mais efetivos. Animais também têm fome, etc. Alguém “apaixonado” perde capacidade racional, não ganha e estou falando num sentido amplo. Alguém com medo ganha em raciocínio, tende a ser cuidadoso. Estamos falando no fator que mais influenciou e ajudou a capacidade cognitiva do homem a se desenvolver…

Gui:
— Animais também têm medo. O homem sempre procura o bem-estar.

Marcelo:
— Sim, mas quem proporciona melhorias na busca deste não é ele mesmo, é o medo. Medo de ter que entrar, lutar, pegar o peixe, se afogar.

Gui:
— Quero dizer outra coisa. Por exemplo, medo de morrer… O selvagem não tinha porque não conhecia a morte, não sabia o que era.

Marcelo:
— Sim, mas é para ilustrar como uma vara de pescar é um efeito do medo. Sim, e paixão e suas necessidades fizeram com que sobrevivesse para contar sua história…

Gui:
— Medo da dor pode ser considerado paixão, porque seria a busca por uma posição agradável, de repouso, bem-estar. Nessa sua concepção de medo abrange todas as paixões possíveis, de certa forma. Ou seja, paixões e medos estão fundidos em um só.

Marcelo:
— Não concordo. Medo é receio de ser desagradável.

Gui:
— Medo é receio de ser desagradável, paixão é busca pelo agradável…. Basta inverter tudo… E pronto, é a mesma coisa.

Marcelo:
— Mas paixão não é busca pelo agradável…

Gui:
— Eu não vejo como uma vara de pescar pode ser produto do medo e não da paixão.

Marcelo:
— Não da paixão a qual você se refere.

Gui:
— Nutrição! Fome é uma paixão. É um desejo.

Marcelo:
— A paixão pela pesca de hoje em dia teria mais a ver, por exemplo. Mas não é sobre isso que discutimos, é sobre qual mais influenciou junto à inteligencia.

Gui:
— A inteligência já estava presente no homem. E não em outros animais. São pré-definições para que possamos ter um diálogo.

Marcelo:
— Sim, sim, sim… Mas não é sobre isso que discutimos. A inteligência é algo óbvio. Estamos discutindo o que ajudou mais a desenvolvê-la.

Gui:
— A evolução do homem é devido a ela. Eu defendo que as duas coisas — paixão e medo — ajudaram. Eu não defendo um fator majoritario.

Marcelo:
— Eu defendo que o medo foi o fator majoritário. Então, mas eu acho que o fator não puramente biológico que ajudou a desenvolver a inteligência foi esse principalmente, o medo. Porque o medo que pensamos hoje em dia é o terror.

Gui:
— Outra coisa que diferencia o homem dos animais é a liberdade de querer e não querer… Desejar…

Marcelo:
— Mas eu considero o medo como a aflição, o incômodo, é isso que faz o ser humano a pensar no que seria mais efetivo.

Gui:
— Acho que tem todo um progresso contínuo. Depois vem a curiosidade também. Muito importante.

Marcelo:
— Sim, mas a curiosidade é despertada pela paixão e contida pelo medo, ela é conseqüencia. Mas isso é posterior. Estamos falando do que antecede tudo.

Gui:
— Sim. Que para mim é: nutrição, medo da dor, repouso (bem-estar), e reprodução. Ou seja, paixão.E medo. Ah, sim, como eu disse, a curiosidade vem depois.

Marcelo:
— O que quero dizer é: um animal com 90% paixao 10% medo morre fácil, fácil. O contrário dura muito mais. E hoje em dia isso se reflete perfeitamente.

Gui:
— Mas paixão é medo da dor também… Quero dizer, a de Diderot…

Marcelo:
— Por que é medo da dor? É paixão pela vida?

Gui:
— Vida, morte…. Ele não sabia o que era… Pensa que o Homem Natural não morava em sociedade com outros homens. Mas ele sabia o que era dor, como todo animal, e temia sentir dor.

Marcelo:
— Sim, sim. Ele sabe que quando ele se corta é ruim e dói. E ele prefere não sentir isso, o que poderia ser uma certa paixão pelo bem estar, que nada mais é que a fuga do incômodo, da aflição.

Gui:
— Aí que medo e paixão se fundem. Busca pelo bem-estar, repouso… Na minha cabeça as idéias estão claras e distintas. Isso que está faltando. As idéias claras distintas de paixão e medo.

Marcelo:
— Mas no início e no fim, você tem o medo. O medo é a origem e o fim da coisa. Pois ele será cuidadoso quando for andar, por exemplo. Para manter o bem-estar e para evitar a aflição. Pensemos hoje em dia nos estados primitivos da coisa. Você acha que o cara usar tarrafas e choques elétricos para pegar peixes tem mais a ver com paixão ou medo?
Medo gera efetividade, paixão não.

Gui:
— Depende… Se paixão for vontade de comer… Antes o homem vai pescar quando ele está sozinho, sem sociedade, no estado natural, no início de tudo. O próximo passo é a concorrência… Homens disputando por comida, mas logo essa fase passa, porque o homem com sua inteligência percebe que é melhor eles se unirem para conseguirem seus propósitos comuns.

Marcelo:
— Está bem, ele vai pescar, se corta, dá trabalho, ele sua, ele demora. Aflige-se. O cara não pega um bicho grande com arco e flecha porque ele é apaixonapo por comida, mas porque dá menos trabalho que pegar 10 coelhos.

Gui:
— Quando eles começam a morar em choças, surge a primeira forma de sociedade…. É mais fácil construir uma cabana para si que desocupar uma outra…. Assim surge o amor moral (conjugal, paternal, etc) Dai surge uma demanda maior — necessitando de métodos mais eficazes para se obter comida —, que antes não existia, porque antes o homem era só, não tinha família, sociedade.

Marcelo:
— E concorrência é medo de ficar sem, medo de extinção. É mais facil construir uma cabana para si que desocupar uma outra denota afliçao, medo. Não é paixão pelo lugar que ele está. É a afliçao de ter que mudar constantemente. O medo gera a sociedade. E não a paixão. Medo gera a efetividade. Esse é meu ponto. Paixão é essencial à sobrevivência no sentido de necessidades biológicas. Mas paixão não é necessária à evolução. O medo é. O medo é a aflição, o incômodo. É ele que faz alguém ver uma mesa quadrada que é ruim para sentar e fazer algo rendondo e confortável. É ele que faz o homem viver junto com outro pra facilitar a vida e assim ter tempo pra evoluir.

Gui:
— É busca pelo bem-estar: paixão. É repouso.

Marcelo:
— E tendo esse medo ele evita a situação, depois disso surge a paixão por esse bem-estar. Começando do zero, ele sente medo antes dessa paixão.
Um bebê só se alimenta porque o medo dos pais de ele morrer desnutrido existe.

Gui:
— Mas e a vontade do bebê em se alimentar? E a paixão dos pais pela reprodução?

Marcelo:
— Mas eu digo que a paixão pelo bem-estar é diferente de medo.
Um implica no outro.

Gui:
— Eu quero dizer que estão fundidos.

Marcelo:
— Reprodução você estava a usar como o cio e copula.

Gui:
— Não… Estava junto com nutrição, repouso e medo da dor, junto com paixão, de uma forma geral.

Marcelo:
— Mesmo assim, ele ajuda a sobreviver, não evoluir. Essa é a chave. Sobreviver os animais sobrevivem ate hoje. Diderot garante a vida com seu conceito, mas não garante a evolução, o descontento com a coisa, a aflição, o incômodo.
Bom, acho que podemos concluir que para evolução em auxílio ao fator cognitivo humano, o rapaz que mais ajudou foi o sr. Medo.

Gui:
— Na sua concepção de medo, receio que devo concordar, embora haja uma intersecção com a minha concepção de paixão.

Conclusão última:

Paixão e medo são conceitos chaves para o entendimento da evolução do ser humano — do seu estado natural para seu estado civil, tal como o conhecemos hoje. O medo e a paixão são princípios inatos ao homem. As idéias de medo e paixão não são idéias claras e distintas, dessa forma, tudo indica que há uma correlação entre paixão e medo. O medo da dor é uma paixão, por exemplo. A paixão pela vida da cria, pela reprodução, denota o medo dos progenitores em perder seus filhotes. Dessa forma, fica claro expor que a evolução do homem tem como princípios básicos o medo e a paixão, e que estes princípios não podem pura e simplesmente serem separados. O que difere o homem de outros animais é a sua inteligência, que aliada a sua engenhosidade e às paixões e, por sua vez, aos medos, fez com que o homem pudesse enfim evoluir.

Written by Baphomet in: Altamente X |

9 Comentários »

  • AlexandreNo Gravatar

    Nunca houve homem-natural.

    Responder

    Comentário | 10 de novembro de 2007
  • MNovaexNo Gravatar

    Houve sim, 100% natural e sem conservantes, com Cervantes, e mais uma galera aí.

    Responder

    Comentário | 13 de novembro de 2007
  • KrähenbühlNo Gravatar

    Então me vê um homem-natural, pra viagem, por favor. Acompanha fritas?

    Responder

    Comentário | 13 de novembro de 2007
  • AlexandreNo Gravatar

    nunca pensei que fosse ver você pedindo homem pra comer

    Responder

    Comentário | 13 de novembro de 2007
  • KrähenbühlNo Gravatar

    E quem disse que é para comer?
    Homens naturais são ótimos escravos. =P

    Responder

    Comentário | 13 de novembro de 2007
  • MNovaexNo Gravatar

    Sexuais?

    Responder

    Comentário | 13 de novembro de 2007
  • igor stozzoNo Gravatar

    tive preguiça de ler tudo

    Responder

    Comentário | 5 de dezembro de 2007
  • AndréaNo Gravatar

    Olha, discordo um pouco do posicionamento inicial do “Gui”, antigamente o homem escolhia sim, mas baseado em fatores reprodutivos, ancas maiores, seios mais fartos, qualquer coisa que garantisse o devido cuidado da prole.

    Isso gerava uma disputa, porque a taxa de mortalidade de mulheres e a perspectiva de vida eram baixíssimas, então eram poucas as que estavam em condições de serem boas reprodutoras e estas ainda duravam muito pouco.

    Se você acompanhar a evolução humana apenas vemos que as medidas para “boas ou bons reprodutores” que se modificaram, não essa necessidade em si (isso tirando o caso do sexo por prazer), por exemplo: o “bom partido” nada mais era do que um reprodutor que garantisse uma prole saudável e a perpetuação do sangue e bens da família, a “boa noiva” nada mais era do que a mulher que conseguiria manter a honra da casa e criar os filhos. Ainda que os filhos mais visassem a continuação da lógica capitalista de propriedade privada, eles possuíam (possuem) um lugar central na percepção subconsciente na escolha de uma parceira. O que você gosta para você é o que gostaria para seus filhos (mas não pensem em quesitos de bizarrices freudianas).

    No fim tudo é uma escolha, no casamento, indiretamente voltada para a filharada saudável e educada, um biológico bem travestido.
    Amor paixão, aqui no Brasil, não sei se sabem…começou só pelos anos 30 por causa do cinema americano. E ainda assim no começo do século um bando de médicos e estudiosos, influenciados pelo positivismo e sua busca pelo ’ser humano perfeito’, ficavam enchendo os ouvidos do povo com frases pró-reprodução. O que dá pra entender se for pensar no poder da igreja na sociedade da época etc.

    Chegava ao cúmulo de ter notícias dizendo que mulheres solteiras contraiam mais doenças que as normais ou que “as perdidas na vida”, que mulheres sozinhas morriam toda hora. Então essa paixão como conhecemos hoje, a paixão das artes e da filosofia ficou muito muito restrita a apenas livros e diálogos, a casos pontuais, na prática massificou agora pouco.

    E desejo é bem diferente de paixão, ao meu ver, um pouco influenciada pelos estoichatos, a paixão é o extremo de um sentimento ou desejo, e um extremo é bem diferente da coisa em si, uma irracionalidade.
    Sentir-se ameaçado é diferente de sentir ódio. Sentir fome é diferente de sentir gula.

    Fome para sobrevivência é uma necessidade, sentir fome sem morrer de fome é um desejo, estar sem fome e comer mais que o necessário para satisfação é gula, é uma paixão.

    Entrando então no mérito da evolução, concordo com vocês na conclusão final, mas com um raciocínio feito de forma “diferente”….de fato as paixões ajudam na concepção de evolução histórica, afinal é de extremos que ela se move, mas ela apenas se mostra em “pequenas partes” comparativamente a totalidade do tempo, pois o excesso de paixão cria o caos e a evolução necessita de uma certa ordem para disseminar suas propriedades pelo mundo, para enraizar.

    Se a paixão faz guinadas históricas e evolutivas, é o medo “normal” que mantém a ordem para que essas guinadas se consolidem e sejam adotadas por uma maioria a sociedade, dando lugar a mais alguma modificação etc.

    O medo para mim é respectivamente: o medo da dor/morte= medo “norma; o extremo do “vazio” existencial, do desejo por algo, do medo da dor e da morte como fator para as “guinadas evolutivas”.
    Assim, fica uma mistureba ao meu ver, do posicionamento de vocês dois…

    Só pra exemplificar tentativas de evolução:
    O nazismo, guerras, remédios* são fruto de uma paixão, um extremo (desejo:poder, medo:burlar a morte a qualquer custo). Mas essa evolução só se manteve, foi adotada por uma população, por um medo menor, o da prevenção da dor Humana. A alemanha não queria mais crises futuras, os países não queriam problemas com suprimentos e ameaças internacionais futuras, as pessoas tem medo de adoecer. Assim apoiam ideologias, políticas e compram remédios ao menor sinal de alguma coisa. Não esperam chegar a dor, previnem o quanto puderem, ficam de olho no futuro.

    Se for pensar assim as invenções, no início da humanidade, são fruto de uma paixão, e o ato de caçar é fruto de um medo.
    Dá mais trabalho realmente caçar 10 coelhos que fazer uma lança pra abater um bicho grande, mas o homem não sabe que dá mais trabalho, está alimentando-se do mesmo jeito, suprimindo seu medo da morte, até ter uma paixão que desperta essa ira contra a improdutividade e inventar a lança, depois ele adota a lança pela facilidade e medo de morrer de fome e assim vai… .. .

    Bueno escrevi uma bíblia. Mas faz mal ver um assunto bacana e não comentar.

    Enfim,

    Amém
    E blog legal…

    Responder

    Comentário | 10 de dezembro de 2007
  • EsterNo Gravatar

    O diálogo dever ter demoraaaado!

    Amar é antropológico. Penso que o mito do amor romântico ocidental teve origem em Tristão e Isolda, por volta do século XII. Os gregos eram puro desejo. O medievo trouxe essa questão mais romântica e conflituosa para a nossa concepção de amor.

    Porém, o negócio é descobrir isso tudo amando!

    Abraços

    Responder

    Comentário | 17 de junho de 2008

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